O navio de espelhos. Mário Cesariny

AirShipView2a.jpg

O navio de espelhos

não navega, cavalga

 

Seu mar é a floresta

que lhe serve de nível

 

Ao crepúsculo espelha

sol e lua nos flancos

 

Por isso o tempo gosta

de deitar-se com ele

 

Os armadores não amam

A sua rota clara

 

(Vista do movimento

dir-se-ia que pára)

 

Quando chega à cidade

nenhum cais o abriga

 

O seu porão traz nada

nada leva à partida

 

Vozes e ar pesado

é tudo o que transporta

 

E no mastro espelhado

uma espécie de porta

 

Seus dez mil capitães

têm o mesmo rosto

 

A mesma cinta escura

o mesmo grau e posto

 

Quando um se revolta

há dez mil insurrectos

 

(Como os olhos da mosca

reflectem os objectos)

 

E quando um deles ala

o corpo sobre os mastros

 

e escruta o mar do fundo

Toda a nave cavalga

(como no espaço os astros)

 

Do princípio do mundo

até ao fim do mundo

 

mário cesariny

a cidade queimada

assírio & alvim

2000

trazido d’aqui

(Desenho de Chris Becker,  Traveller)

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