Mês: Junho 2016

Idílio. Antero de Quental

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Quando nós vamos ambos, de mãos dadas,
Colher nos vales lírios e boninas,
E galgamos dum fôlego as colinas
Dos rocios da noite inda orvalhadas;

Ou, vendo o mar das ermas cumeadas
Contemplamos as nuvens vespertinas,
Que parecem fantásticas ruínas
Ao longo, no horizonte, amontoadas:

Quantas vezes, de súbito, emudeces!
Não sei que luz no teu olhar flutua;
Sinto tremer-te a mão e empalideces

O vento e o mar murmuram orações,
E a poesia das coisas se insinua
Lenta e amorosa em nossos corações.

Antero de Quental

5. Lieke Marsman

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Se a palavra angústia começasse pela primeira letra do alfabeto em cada língua

Se eu acordada pensasse que iria despertar de repente

Se eu visse constantemente algo mexer-se no canto do olho,

Sendo contudo sempre uma árvore existente

Se eu tivesse medo de repentinamente começar a pensar que

tudo girava à volta da minha pessoa

Se tudo girasse à minha volta

Se eu esperasse que a minha respiração recuperasse espontaneamente

porque me tinha esquecido que já o fazia, como uma criança

que pensa que vai deixar de ter oxigénio durante o sono

Se eu fosse novamente essa criança

Se eu tivesse medo que a partir de agora o tempo deixasse de passar,

o que me obrigaria a ficar neste momento para sempre

Se me culpasse de ser paradoxal, seria logicamente obrigada

a perdoar-me ao mesmo tempo

Se eu pensasse que de repente o mundo se abriria

Sob a forma de um olho de gato ou de uma vagina:

 

Aqui

ergue-te, abre uma janela

com uma mão que sentes, à vista

de alguém que queres sentir,

no reflexo da janela fechada.

 

( de De eerste letter, 2014)

trazido d’aqui

Como palavras. Lieke Marsman

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Não preciso de pôr um ponto final

a algo que está irrevogavelmente suspenso.

 

Não me devo esconder no rosto de outra pessoa ou

ficar desanimada com isso. Devo projectar algo

que irá descobrir-se ser um mapa, iniciar uma viagem

bela e inesgotável como palavras, como palavras.

 

Não preciso de abrir uma porta

para a deixar entrar.

 

Tão-só fechar uma janela

que ela irá querer arrombar.

 

(Lieke Marsman, De De eerste letter, 2014)

trazido d’aqui

[poesia japonesa – tanka] Shikibu.

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Se o cavalo dele

tivesse sido domado

pela minha mão –

eu tê-lo-ia ensinado

a não seguir mais ninguém.

 

Isumi Shikibu

 O Japão no Feminino – I – Tanka  poesia dos séculos IX a XI, Assírio & Alvim, 2007

A forma poética conhecida como TANKA – poema de 31 sílabas em japonês, mais extensa que HAIKU com apenas 17 sílabas.

recado. Al Berto

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desprende-se do teu olhar o magnífico
abandono dos animais adormecidos
recordo tuas mãos gretadas pelos sóis oblíquios destes dias
do corpo esquecido jorram resinas
retenho ainda os mais íntimos desejos de me confundir com a paisagem
ou de viver precariamente no outro lado do seu silêncio enrubescido

Al Berto

Cidade dos desaparecidos. Rui Pires Cabral

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Muitas vezes não amei Lisboa,
não soube amá-la ao anoitecer
dos dias úteis, quando era gasta,
parada e suja, e nos autocarros
quase vazios viajava de luz acesa
a entranhada tristeza do mundo
que foi a minha primeira e mais
precoce intuição. Grande cidade
dos desaparecidos, eu não tive
tantas vezes a saúde de gostar
dos teus pequenos jardins
abandonados. Quando nos cafés
já iam desligando as máquinas
e do outro lado da linha ninguém
voltava jamais a responder
como eu queria, quantas vezes
não pude achar o sítio e o sossego
para esquecer e dormir? Mesmo assim,
eu não te fiz justiça, Lisboa, quando
me deixei de ti: eu não era exemplo,
eu sempre estranhei um pouco a cama
da vida.

Em Lisboa, sobre o mar: Poesia 2001-2010 [de Longe da aldeia], 2013

A Terra do Nunca. Nuno Júdice

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Se eu fosse para a terra do nunca,
teria tudo o que quisesse numa cama de nada:

os sonhos que ninguém teve quando
o sol se punha de manhã;

a rapariga que cantava num canteiro
de flores vivas;

a água que sabia a vinho na boca
de todos os bêbedos.

Iria de bicicleta sem ter de pedalar,
numa estrada de nuvens.

E quando chegasse ao céu pisaria
as estrelas caídas num chão de nebulosas.

A terra do nunca é onde nunca
chegaria se eu fosse para a terra do nunca.

E é por isso que a apanho do chão,
e a meto em sacos de terra do nunca.

Um dia, quando alguém me pedir a terra do nunca,
despejarei todos os sacos à sua porta.

E a rapariga que cantava sairá da terra
com um canteiro de flores vivas.

E os bêbedos encherão os copos
com a água que sabia a vinho.

Na terra do nunca, com o sol a pôr-se
quando nasce o dia.

Nuno Júdice, Poemas [de As Coisas Mais Simples],  2009.

maio de 68. Vasco Graça Moura

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um belo dia em maio
de sessenta e oito, tempo
feito de equívocos,
em alfama, as vizinhas conversavam.

a roupa secava ao sol.
os filhos estavam na escola.
elas falavam dos maridos.
e comentavam luísa, a

apanhadora de malhas em meias,
com o marido fora há dez anos,
sem dar notícias. tinha havido
desordens entre quatro

homens daquele bairro, por causa
de luísa, que os
ignorou e continuava a
cuidar do filho e a

apanhar malhas, sossegadamente,
na janela do rés-do-chão,
inclinando a cabeça como
a rendilheira de vermeer.

estavam as vizinhas
nisto, deplorando
o desperdício da
juventude de luísa,

por absurda esperança e
por delicadeza
assim perdendo a vida, quando
se aproximou um estranho.

deitam-se a adivinhar.
aquele bem podia ser fernando,
marido de luísa
e alvoroçaram-se e um cão ladrou.

no beco, entre
os potes de sardinheiras
e a roupa ainda a secar,
estavam enganadas, mas

tinham razão num ponto:
era um marinheiro grego,
exausto, ainda a ofegar,
depois de uma cena de porrada

das antigas, que não tinha
nada a ver com luísa,
mas que se
chamava odisseus.

Vasco Graça Moura

Em Lisboa, sobre o mar: Poesia 2001-2010

O espelho. Mia Couto

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Esse que em mim envelhece
assomou ao espelho
a tentar mostrar que sou eu.

Os outros de mim,
fingindo desconhecer a imagem,
deixaram-me a sós, perplexo,
com meu súbito reflexo.

A idade é isto: o peso da luz
com que nos vemos.

 

Mia Couto

“Idades Cidades Divindades”

Uma Filosofia Toda. Alberto Caeiro

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As bolas de sabão que esta criança
Se entretém a largar de uma palhinha
São translucidamente uma filosofia toda.
Claras, inúteis e passageiras como a Natureza,
Amigas dos olhos como as cousas,
São aquilo que são
Com uma precisão redondinha e aérea,
E ninguém, nem mesmo a criança que as deixa,
Pretende que elas são mais do que parecem ser.
Algumas mal se vêem no ar lúcido.
São como a brisa que passa e mal toca nas flores
E que só sabemos que passa
Porque qualquer cousa se aligeira em nós
E aceita tudo mais nitidamente.

Alberto Caeiro

“O Guardador de Rebanhos – Poema XXV”
Heterónimo de Fernando Pessoa