Mês: Maio 2016

Tu à noite. Harold Pinter

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Tu à noite havias de escutar

A trovoada e o ar ambulante.

Tu nessa margem hás-de virar

Para onde estão as intempéries dominantes.

Toda essa honrada esperança

Ruirá na ardósia,

E destroçará o inverno

Que vocifera a teus pés.

Se bem que ardam os altares apaixonantes,

E que o sol deliberado

Faça ladrar a águia,

Tu avançarás na corda bamba.

 

harold pinter

várias vozes

quasi

2006

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Sobre um Poema. Herberto Helder

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Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
– a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

– Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
– E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

Herberto Helder

Quiçá a mais querida. Julio Cortázar

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Deste-me a intempérie,

A leve sombra da tua mão

Passando por meu rosto.

Deste-me o frio, a distância,

O amargo café da meia-noite

Entre mesas vazias.

Sempre começou a chover

Na metade do filme,

A flor que para ti levei tinha

Uma aranha esperando entre as pétalas

Creio que sabias

E que favoreceste a desgraça.

Sempre esqueci o guarda-chuva

Antes de ir buscar-te,

O restaurante estava lotado

E vozeavam a guerra nas esquinas.

Foi uma letra de tango

Para tua indiferente melodia.

 

Julio Cortázar

Silêncios da fala. Mª Teresa Horta

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São tantos
os silêncios da fala

De sede
De saliva
De suor

Silêncios de silex
no corpo do silêncio

Silêncios de vento
de mar
e de torpor

De amor

Depois, há as jarras
com rosas de silêncio

Os gemidos
nas camas

As ancas
O sabor

O silêncio que posto
em cima do silêncio
usurpa do silêncio o seu magro labor

Mª Teresa Horta

The Female of the Species. Rudyard Kipling

Promised

WHEN the Himalayan peasant meets the he-bear in his pride,

He shouts to scare the monster, who will often turn aside.

But the she-bear thus accosted rends the peasant tooth and nail.

For the female of the species is more deadly than the male.

 

When Nag the basking cobra hears the careless foot of man,

He will sometimes wriggle sideways and avoid it if he can.

But his mate makes no such motion where she camps beside the trail.

For the female of the species is more deadly than the male.

 

When the early Jesuit fathers preached to Hurons and Choctaws,

They prayed to be delivered from the vengeance of the squaws.

‘Twas the women, not the warriors, turned those stark enthusiasts pale.

For the female of the species is more deadly than the male.

 

Man’s timid heart is bursting with the things he must not say,

For the Woman that God gave him isn’t his to give away;

But when hunter meets with husbands, each confirms the other’s tale—

The female of the species is more deadly than the male.

 

Man, a bear in most relations—worm and savage otherwise,—

Man propounds negotiations, Man accepts the compromise.

Very rarely will he squarely push the logic of a fact

To its ultimate conclusion in unmitigated act.

 

Fear, or foolishness, impels him, ere he lay the wicked low,

To concede some form of trial even to his fiercest foe.

Mirth obscene diverts his anger—Doubt and Pity oft perplex

Him in dealing with an issue—to the scandal of The Sex!

 

But the Woman that God gave him, every fibre of her frame

Proves her launched for one sole issue, armed and engined for the same;

And to serve that single issue, lest the generations fail,

The female of the species must be deadlier than the male.

 

She who faces Death by torture for each life beneath her breast

May not deal in doubt or pity—must not swerve for fact or jest.

These be purely male diversions—not in these her honour dwells—

She the Other Law we live by, is that Law and nothing else.

 

She can bring no more to living than the powers that make her great

As the Mother of the Infant and the Mistress of the Mate.

And when Babe and Man are lacking and she strides unclaimed to claim

Her right as femme (and baron), her equipment is the same.

 

She is wedded to convictions—in default of grosser ties;

Her contentions are her children, Heaven help him who denies!—

He will meet no suave discussion, but the instant, white-hot, wild,

Wakened female of the species warring as for spouse and child.

 

Unprovoked and awful charges—even so the she-bear fights,

Speech that drips, corrodes, and poisons—even so the cobra bites,

Scientific vivisection of one nerve till it is raw

And the victim writhes in anguish—like the Jesuit with the squaw!

 

So it comes that Man, the coward, when he gathers to confer

With his fellow-braves in council, dare not leave a place for her

Where, at war with Life and Conscience, he uplifts his erring hands

To some God of Abstract Justice—which no woman understands.

 

And Man knows it! Knows, moreover, that the Woman that God gave him

Must command but may not govern—shall enthral but not enslave him.

And She knows, because She warns him, and Her instincts never fail,

That the Female of Her Species is more deadly than the Male.

 

This poem can be found, for example, in:

Kipling, Rudyard. Rudyard Kipling’s Verse: Inclusive Edition, 1885-1918. London: Hodder & Stoughton, 1919.

Paraíso. David Mourão-Ferreira

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Deixa ficar comigo a madrugada,

para que a luz do Sol me não constranja.

Numa taça de sombra estilhaçada,

deita sumo de lua e de laranja.

 

Arranja uma pianola, um disco, um posto,

onde eu ouça o estertor de uma gaivota…

Crepite, em derredor, o mar de Agosto…

E o outro cheiro, o teu, à minha volta!

 

Depois, podes partir. Só te aconselho

que acendas, para tudo ser perfeito,

à cabeceira a luz do teu joelho,

entre os lençóis o lume do teu peito…

 

Podes partir. De nada mais preciso

para a minha ilusão do Paraíso.

 

David Mourão-Ferreira

 

Viagens. Pedro Abrunhosa

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Já vai alta a noite, vejo o negro do céu,
deitado na areia, o teu corpo e o meu.
Viajo com as mãos por entre as montanhas e os rios,
e sinto nos meus lábios os teus doces e frios.

E voas sobre o mar, com as asas que eu te dou,
e dizes-me a cantar: "É assim que eu sou".
Olhar para ti e ver o que eu vejo,
olhar-te nos olhos com olhares de desejo.
Olhar para ti e ver o que eu vejo,
olhar-te nos olhos com olhares de desejo.
Eu não tenho nada mais p'ra te dar,
esta vida sao dois dias,
e um é para acordar,
das historias de encantar,
das historias de encantar.

Viagens que se perdem no tempo,
viagens sem princípio nem fim,
beijos entregues ao vento,
e amor em mares de cetim.
Gestos que riscam o ar,
e olhares que trazem solidão,
pedras e praias e o céu a bailar,
e os corpos que fogem do chão.

                         Pedro Abrunhosa, in Viagens