Mês: Abril 2016

Um rio de luzes. Ana Hatherly

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Um rio de escondidas luzes

atravessa a invenção da voz:

avança lentamente

mas de repente

irrompe fulminante

saindo-nos da boca

No espantoso momento

do agora da fala

é uma torrente enorme

um mar que se abre

na nossa garganta

Nesse rio

as palavras sobrevoam

as abruptas margens do sentido

 

Ana Hatherly, O Pavão Negro, 2003

Epístola de los poetas que vendrán. Manuel Scorza

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Tal vez mañana los poetas pregunten
por qué no celebramos la gracia de las muchachas;
tal vez mañana los poetas pregunten
por qué nuestros poemas
eran largas avenidas
por donde venía la ardiente cólera.

Yo respondo:
por todas partes oíamos el llanto,
por todas partes nos sitiaba un muro de olas negras.
¿Iba a ser la Poesía
una solitaria columna de rocío?
Tenía que ser un relámpago perpetuo.

Mientras alguien padezca,
la rosa no podrá ser bella;
mientras alguien mire el pan con envidia,
el trigo no podrá dormir;
mientras llueva sobre el pecho de los mendigos,
mi corazón no sonreirá.

Matad la tristeza, poetas.
Matemos a la tristeza con un palo.
No digáis el romance de los lirios.
Hay cosas más altas
que llorar amores perdidos:
el rumor de un pueblo que despierta
¡es más bello que el rocío!
El metal resplandeciente de su cólera
¡es más bello que la espuma! 
Un Hombre Libre
¡es más puro que el diamante!

El poeta libertará el fuego
de su cárcel de ceniza.
El poeta encenderá la hoguera
donde se queme este mundo sombrío.

Manuel Scorza

Ultimatum. Álvaro de Campos

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Mandato de despejo aos mandarins do mundo

Fora tu, reles e snobe plebeu

E fora tu, imperialista das sucatas

Charlatão da sinceridade

e tu, da juba socialista,

e tu, qualquer outro Ultimatum a todos eles

E a todos que sejam como eles Todos!

Monte de tijolos com pretensões a casa

Inútil luxo, megalomania triunfante

E tu, Brasil, blague de Pedro Álvares Cabral

Que nem te queria descobrir

Ultimatum a vós que confundis o humano com o popular

Que confundis tudo Vós, anarquistas deveras sinceros

Socialistas a invocar a sua qualidade de trabalhadores

Para quererem deixar de trabalhar

Sim, todos vós que representais o mundo

Homens altos

Passai por baixo do meu desprezo

Passai aristocratas de tanga de ouro

Passai Frouxos

Passai radicais do pouco Quem acredita neles?

Mandem tudo isso para casa Descascar batatas simbólicas

Fechem-me tudo isso a chave E deitem a chave fora

Sufoco de ter só isso a minha volta

Deixem-me respirar Abram todas as janelas

Abram mais janelas Do que todas as janelas que há no mundo

Nenhuma idéia grande Nenhuma corrente política

Que soe a uma idéia grão

E o mundo quer a inteligência nova

A sensibilidade nova

O mundo tem sede de que se crie

Porque aí está apodrecer a vida

Quando muito é estrume para o futuro

O que aí está não pode durar Porque não é nada

Eu da raça dos navegadores

Afirmo que não pode durar

Eu da raça dos descobridores

Desprezo o que seja menos

Que descobrir um novo mundo

Proclamo isso bem alto Braços erguidos Fitando o Atlântico

E saudando abstractamente o infinito.

“Alvaro de Campos, 1917”

 

Fonte: “Porque é Poesia” [este poema  decorreu de uma troca coletiva, em que se foram enviando e recebendo poemas por email, a que o remetente atribuiu significado; na qualidade de destinatária, também me pareceu relevante partilhá-los]

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Um Amor. Nuno Júdice

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Aproximei-me de ti; e tu, pegando-me na mão,
puxaste-me para os teus olhos
transparentes como o fundo do mar para os afogados. Depois, na rua,
ainda apanhámos o crepúsculo.
As luzes acendiam-se nos autocarros; um ar
diferente inundava a cidade. Sentei-me
nos degraus do cais, em silêncio.
Lembro-me do som dos teus passos,
uma respiração apressada, ou um princípio de lágrimas,
e a tua figura luminosa atravessando a praça
até desaparecer. Ainda ali fiquei algum tempo, isto é,
o tempo suficiente para me aperceber de que, sem estares ali,
continuavas ao meu lado. E ainda hoje me acompanha
essa doente sensação que
me deixaste como amada
recordação.

Nuno Júdice, in “A Partilha dos Mitos”

(imagem: Svabhu Kohli Ilustration)

As Quatro Estações eram Cinco. Jorge de Sena

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O verão passa e o estio se anuncia

que o outono se há-de ser e logo inverno

de que virá nascida a primavera.

Mais breve ou longo se renova o dia

sempre da noite em repetir-se, eterno.

Só o homem morre de não ser quem era.

Jorge de Sena, Exorcismos, 1972. Republicado na compilação Poesia III, Lisboa: Editorial Presença, 1989.

A Fome. Luís Miguel Nava

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Aqui, onde a mão não
alcança o interruptor da vida, aqui
só brilha a solidão.
Desfazem-se as lembranças contra os vidros.

Aqui, onde a brancura
dum lenço é a brancura do infortúnio,

aqui a solidão
não brilha, apenas
se estorce.
A fome fala através das feridas.

Luís Miguel Nava. Vulcão,  Quetzal, 1994.

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