Mês: Março 2016

Num tapete de água. Thomas Bernhard

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Num tapete de água

vou bordando os meus dias,

os meus deuses e as minhas doenças.

 

Num tapete de verdura

vou bordando os meus sofrimentos vermelhos,

as minhas manhãs azuis,

as minhas aldeias amarelas e os meus pães de mel amarelos também.

 

Num tapete de terra

vou bordando a minha efemeridade.

Nele vou bordando a minha noite

e a minha fome,

a minha tristeza

e o navio de guerra dos meus desesperos,

que vai deslizando p’ra mil outras águas,

para as águas do desassossego,

para as águas da imortalidade.

 

Thomas Bernhard, Na Terra e no Inferno, tradução e introdução de José A. Palma Caetano, Assírio & Alvim, Lisboa, 2000

trazido de Vício da Poesia

 

 

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Hino. Jorge Luís Borges

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Esta manhã

há no ar a incrível fragrância

das rosas do Paraíso.

Na margem do Eufrates

Adão descobre a frescura da água.

Uma chuva de ouro cai do céu;

é o amor de Zeus.

Salta do mar um peixe

é um homem de Agrigento lembrará

ter sido ele esse peixe.

Na gruta cujo nome será Altamira

dedos sem rosto traçam a curva

de um lombo de bisonte.

A lenta mão de Virgílio acarinha

a seda trazida

do reino do Imperador Amarelo

por naus e caravanas.

O primeiro rouxinol canta na Hungria.

Jesus vê na moeda o perfil de César.

Pitágoras revela aos seus gregos

que a forma do tempo é a do círculo.

Numa ilha do Oceano

os lebréus de prata perseguem os veados de ouro.

Numa bigorna forjam a espada

que será fiel a Sigurd.

Whitman canta em Manhattan.

Homero nasce em sete cidades.

Uma donzela acaba de caçar

o unicórnio branco.

Todo o passado volta, é uma onda,

e essas antigas coisas regressam

porque uma mulher te beijou.

 

Poema publicado em La Cifra (1981), aqui em tradução de Fernando Pinto do Amaral, in Jorge Luis Borges, Obras Completas, vol III, Editorial Teorema, Lisboa, 1998.

Trazido de Vicio da Poesia

L’Éternité. Rimbaud

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Elle est retrouvée.

Quoi ? – L’Éternité.

C’est la mer allée

Avec le soleil.

 

Âme sentinelle,

Murmurons l’aveu

De la nuit si nulle

Et du jour en feu.

 

Des humains suffrages,

Des communs élans

Là tu te dégages

Et voles selon.

 

Puisque de vous seules,

Braises de satin,

Le Devoir s’exhale

Sans qu’on dise : enfin.

 

Là pas d’espérance,

Nul orietur.

Science avec patience,

Le supplice est sûr.

 

Elle est retrouvée.

Quoi ? – L’Éternité.

C’est la mer allée

Avec le soleil.

 

Rimbaud, Poésies completes, Librairie Générale Française, 1998.

Pretendente à verdade. Nietzsche

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Pretendente à verdade? Tu? — escarneciam —

Não! Apenas um poeta!

Um animal, e astuto, rapinante, furtivo,

Que tem de mentir,

Que tem, ciente e voluntariamente, de mentir:

Cobiçando a presa,

Mascarado de várias cores,

Máscara para si próprio,

Para si próprio presa…

Isto, o pretendente à verdade?

Não! Apenas louco! Apenas poeta!

Proferindo só discursos confusos,

Gritando desordenadamente por detrás de máscaras de bobo,

Andando por cima de mentirosas pontes de palavras,

Por cima de arco-íris multicolores,

Entre falsos céus e falsas terras,

Vagueando, pairando por aí…

Apenas louco! Apenas poeta!

 

Friedrich Nietzsche, Assim Falava Zaratustra.Tradução de Paulo Osório de Castro.Lisboa: Relógio D’Água Editores. 1998.