Mês: Fevereiro 2016

Que fazes tu, poeta? Rainer Maria Rilke

via wood is good

Que fazes tu, poeta? Diz! — Eu canto.

Mas o mortal e monstruoso espanto

Como o suportas? — Canto.

E o que nome não tem, tu podes tanto

Que o possas nomear, poeta? — Canto.

De onde te vem o direito ao Vero, enquanto

Usas de máscaras, roupagens? — Canto.

E o que é violento e o que é silente encanto,

Astros e temporais, como te sabem? — Canto.

Rainer Maria Rilke in Poesia do Século XX, Antologia, prefácio e notas de Jorge de Sena, Fora do Texto, Coimbra, 1994.

Epitáfio. Augusto Monterroso

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“Escreveu um drama: disseram que se julgava Shakespeare;

Escreveu um romance: disseram que se julgava Proust;

Escreveu um conto: disseram que se julgava Chekhov;

Escreveu um diário: disseram que se julgava Pavese;

Escreveu uma despedida: disseram que se julgava Cervantes;

Deixou de escrever: disseram que se julgava Rimbaud;

Escreveu um epitáfio: disseram que se julgava defunto.”

Epitáfio achado no cemitério
Monte Parnaso de San Blas, S.B
Augusto Monterroso
trazido daqui

Há um tempo. Fernando Teixeira de Andrade

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Há um tempo em que é preciso
abandonar as roupas usadas,
que já tem a forma do nosso corpo,
e esquecer os nossos caminhos,
que nos levam sempre aos mesmos lugares.
É o tempo da travessia: e,
se não ousarmos fazê-la,
teremos ficado, para sempre,
à margem de nós mesmos.
Fernando Teixeira de Andrade
(excerto de O medo: o maior gigante da alma)

O mapa. Gonçalo M. Tavares

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Sempre senti a matemática como uma presença

Física; em relação a ela vejo-me

Como alguém que não consegue

Esquecer o pulso porque vestiu uma camisa demasiado

Apertada nas mangas.

Perdoem-me a imagem: como

Num bar de putas onde se vai beber uma cerveja

E provocar com a nossa indiferença o desejo

Interesseiro das mulheres, a matemática é isto: um

Mundo onde entro para me sentir excluído;

Para perceber, no fundo, que a linguagem, em relação

Aos números e aos seus cálculos, é um sistema,

Ao mesmo tempo, milionário e pedinte. Escrever

Não é mais inteligente que resolver uma equação;

Porque optei por escrever?Não sei. Ou talvez saiba:

Entre a possibilidade de acertar muito, existente

Na matemática, e a possibilidade de errar muito,

Que existe na escrita (errar de errância, de caminhar

Mais ou menos sem meta) optei instintivamente

Pela segunda. Escrevo porque perdi o mapa.

 

Gonçalo M. Tavares

 

O que se sente e não se consegue dizer. Vergílio Ferreira

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O que habitualmente se sofre (se sente) não se pode
contar. Não é só porque isso é normalmente ridículo
(porque a grande maior parte do que se pensa e sente
é ridículo) e só o que é grande é que cai bem e vale
portanto a pena dizer-se. É que o dizer-se altera o que
se diz. O sentir é irredutível ao dizer. Só o estar
sofrendo diz o sofrer. Na palavra ninguém o reconhece
ou reconhece-o de outra maneira, essa maneira em
que já o não reconhece o que o conta. Mas dizia eu
que a generalidade do que se pensa, sente, é ridícula.
São raros os momentos de «elevação». A quase
totalidade do tempo passamo-la distraídos, alheados
em ideias sem interesse, nascidas de coisas sem
interesse, as coisas que vai havendo à nossa volta ou
no nosso divagar imaginativo ou que nem sequer chega
a haver porque há só a abstracção total no
quedarmo-nos pregados às coisas que nem vemos nem
nos despertam ideia alguma e estão ali apenas como
ponto de fixação do nosso absoluto vazio interior. 

Vergílio Ferreira

A mão no arado. Ruy Belo

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Feliz aquele que administra sabiamente
a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias
Podem passar os meses e os anos nunca lhe faltará

Oh! como é triste envelhecer à porta
entretecer nas mãos um coração tardio
Oh! como é triste arriscar em humanos regressos
e equilíbrio azul das extremas manhãs do verão
ao longo do mar transbordante de nós
no demorado adeus da nossa condição
É triste no jardim a solidão do sol
vê-lo desde o rumor e as casas da cidade
até uma vaga promessa de rio
e a pequenina vida que se concede às unhas
Mais triste é termos de nascer e morrer
e haver árvores ao fim da rua

É triste ir pela vida como quem
regressa e entrar humildemente por engano pela morte dentro

É triste no outono concluir
que era o verão a única estação
Passou o solidário vento e não o conhecemos
e não soubemos ir até ao fundo da verdura
como rios que sabem onde encontrar o mar
e com que pontes com que ruas com que gentes com que montes conviver
através de palavras de uma água para sempre dita
Mas o mais triste é recordar os gestos de amanhã
Triste é comprar castanhas depois da tourada
entre o fumo e o domingo na tarde de Novembro
e ter como futuro o asfalto e muita gente
e atrás a vida sem nenhuma infância
revendo tudo isto algum tempo depois
A tarde morre pelos dias fora
É muito triste andar por entre Deus ausente

Mas, ó poeta, administra a tristeza sabiamente

in “O Problema da Habitação – Alguns Aspectos” (1962)

Profano, prático, público, político, presto, profundo, precário. Herberto Helder

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Profano, prático, público, político, presto, profundo, precário,

improvável poema,

contudo
nem eu estava à espera dos bárbaros que viriam devastar
a terra
porque éramos inocentes,
nós que só queríamos o silêncio,
e a voz diria que se fosse preciso traziam Deus,
e é sim possível que trouxessem qualquer espectáculo com
cristos nus e saltimbancos de feira,
e paus vermelhos,
e paus amarelos,
paus virgens com linho e algodão pintado,
paus compridos com petúnias como borboletas:
e eu achava inadmissível,
e tinha a meio da minha própria linguagem a dor sozinha
em que súbito se repara,
e de que o poema se faz carregado e quente,
e não explicava nada,
e lá vinham os bárbaros como no episódio de Alexandria,
mais uma vez depois de Cavafis,
incendiada pelos soldados de César e do califa Omar,
por franceses e ingleses e todos os outros bárbaros,
por todos os incapazes da medida intrínseca,
a densa meditação que conduz ao poema puro,
e nunca, nunca mais a paixão,
e então o centro do mesmo mundo era o centro de Alexandria,
olhos fechados víamos através das pálpebras a nossa vida ardente
                               e muda e lenta,
e a carne desde o imo desfazia-se num soluço,
magoada, humana,
alexandrina,
e o mundo era pequeno,
mais pequeno com certeza que um poema de um verso único,
universo:
oh nunca mais quero viver no mundo!
Herberto Helder, in Servidões, 2013