Month: Dezembro 2015

Poema agreste. Glória de Sant’Anna

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“Não sei por que buscas palavras longas
para as coisas breves que nos assombram.

Não sei por que teces teias enormes
para as incertezas que nos envolvem.

Não sei por que insistes. Não sei porque insistes
em prender meus passos nesse limite.”
Glória de Sant’Anna, in ‘Poemas do Tempo Agreste’

A Morte Devagar. Martha Medeiros

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Morre lentamente quem não troca de idéias, não troca de discurso, evita as próprias contradições.

Morre lentamente quem vira escravo do hábito, repetindo todos os dias o mesmo trajeto e as mesmas compras no supermercado. Quem não troca de marca, não arrisca vestir uma cor nova, não dá papo para quem não conhece.

Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru e seu parceiro diário. Muitos não podem comprar um livro ou uma entrada de cinema, mas muitos podem, e ainda assim alienam-se diante de um tubo de imagens que traz informação e entretenimento, mas que não deveria, mesmo com apenas 14 polegadas, ocupar tanto espaço em uma vida.

Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o preto no branco e os pingos nos is a um turbilhão de emoções indomáveis, justamente as que resgatam brilho nos olhos, sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.

Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho, quem não se permite, uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.

Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não acha graça de si mesmo.

Morre lentamente quem destrói seu amor-próprio. Pode ser depressão, que é doença séria e requer ajuda profissional. Então fenece a cada dia quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente quem não trabalha e quem não estuda, e na maioria das vezes isso não é opção e, sim, destino: então um governo omisso pode matar lentamente uma boa parcela da população.

Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da chuva incessante, desistindo de um projeto antes de iniciá-lo, não perguntando sobre um assunto que desconhece e não respondendo quando lhe indagam o que sabe.

Morre muita gente lentamente, e esta é a morte mais ingrata e traiçoeira, pois, quando ela se aproxima de verdade, aí já estamos muito destreinados para percorrer o pouco tempo restante. Que amanhã, portanto, demore muito para ser o nosso dia. Já que não podemos evitar um final repentino, que ao menos evitemos a morte em suaves prestações, lembrando sempre que estar vivo exige um esforço bem maior do que simplesmente respirar.

Martha Medeiros

veja-se: http://www.bugei.com.br/news/index.asp?id=8263

Canção à inglesa. Álvaro de Campos

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Cortei relações com o sol e as estrelas, pus ponto no mundo.
Levei a mochila das coisas que sei para o lado e p’ro fundo
Fiz a viagem, comprei o inútil, achei o incerto,
E o meu coração é o mesmo que fui, um céu e um deserto
Falhei no que fui, falhei no que quis, falhei no que soube.
Não tenho já alma que a luz me desperte ou a treva me roube,
Não sou senão náusea, não sou senão cisma, não sou senão ânsia
Sou uma coisa que fica a uma grande distância
E vou, só porque o meu ser é cómodo e profundo,
Colado como um escarro a uma das rodas do mundo.

1-12-1928

Álvaro de Campos, Livro de Versos. Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. p. 90.

Saí do comboio. Álvaro de Campos

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Saí do comboio,
Disse adeus ao companheiro de viagem
Tínhamos estado dezoito horas juntos..
A conversa agradável
A fraternidade da viagem.
Tive pena de sair do comboio, de o deixar.
Amigo casual cujo nome nunca soube.
Meus olhos, senti-os, marejaram-se de lágrimas…
Toda despedida é uma morte…
Sim toda despedida é uma morte.
Nós no comboio a que chamamos a vida
Somos todos casuais uns para os outros,
E temos todos pena quando por fim desembarcamos.
Tudo que é humano me comove porque sou homem.
Tudo me comove porque tenho,
Não uma semelhança com ideias ou doutrinas,
Mas a vasta fraternidade com a humanidade verdadeira.
A criada que saiu com pena
A chorar de saudade
Da casa onde a não tratavam muito bem…
Tudo isso é no meu coração a morte e a tristeza do mundo.
Tudo isso vive, porque morre, dentro do meu coração.
E o meu coração é um pouco maior que o universo inteiro.

Álvaro de Campos,

Livro de Versos. Fernando Pessoa. Lisboa: Estampa, 1993. p. 187.

A Viagem Necessária. Isabel Gouveia

Se buscarmos olhares de aprovação, quem irá aprovar os

nossos actos? Se buscarmos olhares de aprovação,

perdemos nosso tempo precioso, ficaremos horas, dias,

meses, anos, analisando nossas rugas de expressão,

nossas falas,

nossos gestos,

que provocam desagrado, ou ódio, ou repulsa.

Não imploramos o amor dos outros. Nem sempre é maldita

a provação do abandono. Pode ser essencial

para atingirmos a tempo a linha de chegada.

Nunca choremos pelo amor dos outros, que as lágrimas

perturbam a visão e apagam o fiel traço contínuo

da missão de que formos incumbidos.

 

Isabel Gouveia,

Na Voz da Esperança Há Lágrimas.

Poesia Completa. Lisboa, Alétheia Editores, 2012. p. 413.

Eu não tinha nada de felino, tu sabias. Helder Moura Pereira.

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Eu não tinha nada de felino, tu sabias
que eu não tinha nada de felino.
Nenhum de nós se admirou quando
medi mal a distância e falhei o salto.
Enquanto ia no ar parecia que era
um salto bom, porém houve qualquer
coisa que correu mal e caí com estrondo
no chão. Ninguém riu. Não era caso
para rir. Grande ilusão ir pelo ar a pensar
que o salto podia ser bom, sem eu ter
nada de felino, sem nunca ter treinado,
sem fazer sequer aquecimento, sem
olho para medir distâncias. Saber medir
distâncias é uma coisa muito importante,
pode falhar-se a vida por milímetros.

Helder Moura Pereira

O jardim. António Ramos Rosa

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Consideremos o jardim, mundo de pequenas coisas,
calhaus, pétalas, folhas, dedos, línguas, sementes.
Sequências de convergências e divergências,
ordem e dispersões, transparência de estruturas,
pausas de areia e de água, fábulas minúsculas.

Geometria que respira errante e ritmada,
varandas verdes, direcções de primavera,
ramos em que se regressa ao espaço azul,
curvas vagarosas, pulsações de uma ordem
composta pelo vento em sinuosas palmas.

Um murmúrio de omissões, um cântico do ócio.
Eu vou contigo, voz silenciosa, voz serena.
Sou uma pequena folha na felicidade do ar.
Durmo desperto, sigo estes meandros volúveis.
É aqui, é aqui que se renova a luz.

António Ramos Rosa

Inventário. Rui Knopfli

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Rosas inglesas rosa pálido tingido
de alvura, gravatas Lanvin e Ricci.
Na mão a demorada taça de ordálio,
ouro velho e insidioso, doce cheiro a fumo.
Objectos familiares, ténues, difusas

lembranças de longe. Um crânio
de ébano negrejando entre a luz
e a garrulice do barro artesanal,
o cio magoado da voz fadista. A ilha ao sol,
ao sonho, amortalhada na distância.

O cajueiro e a mafurra, micaias
agrestes, panoramas da infância,
dolorosos, esbatidos fantasmas
de outro tempo, agigantados em olmos
e castanheiros na oval cinzenta

do No Man’s Common. Livros por abrir
dormitando na poeira, o gráfico
anguloso do horóscopo, retratos,
memória paralisando o instante
esquecido. A mulher de passagem,

velo fulvo, debrum para o azul
lavado do olhar, perfil mitigando
a vacilante modorra do entardecer.
Alongada curva do flanco retraindo-se
sob a experimentada carícia antiga

dos dedos cansados. Toda a memória
inflectindo o gesto, o gesto já só memória
que de si mesma se desprende e afasta,
conjecturando, indolor, a paisagem
neutra dos dias que se avizinham ermos.

Rui Knopfli

O Corpo de Atena, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1984

Em silêncio descobri essa cidade no mapa. Herberto Helder

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Em silêncio descobri essa cidade no mapa

a toda a velocidade: gota

sombria. Descobri as poeiras que batiam

como peixes no sangue.

A toda a velocidade, em silêncio, no mapa –

como se descobre uma letra

de outra cor no meio das folhas,

estremecendo nos ulmos, em silêncio. Gota

sombria num girassol –

essa letra, essa cidade em silêncio,

batendo como sangue.

Era a minha cidade ao norte do mapa,

numa velocidade chamada

mundo sombrio. Seus peixes estremeciam

como letras no alto das folhas,

poeiras de outra cor: girassol que se descobre

como uma gota no mundo.

Descobri essa cidade, aplainando tábuas

lentas como rosas vigiadas

pelas letras dos espinhos. Era em silêncio

como uma gota

de seiva lenta numa tábua aplainada.

Descobri que tinha asas como uma pêra

que desce. E a essa velocidade

voava para mim aquela cidade do mapa.

Eu batia como os peixes batendo

dentro do sangue – peixes

em silêncio, cheios de folhas. Eu escrevia,

aplainando na tábua

todo o meu silêncio. E a seiva

sombria vinha escorrendo do mapa

desse girassol, no mapa

do mundo. Na sombra do sangue, estremecendo

como as letras nas folhas

de outra cor.

Cidade que aperto, batendo as asas – ela –

no ar do mapa. E que aperto

contra quanto, estremecendo em mim com folhas,

escrevo no mundo.

Que aperto com o amor sombrio contra

mim: peixes de grande velocidade,

letra monumental descoberta entre poeiras.

E que eu amo lentamente até ao fim

da tábua por onde escorre

em silêncio aplainado noutra cor:

como uma pêra voando,

um girassol do mundo.

 

Herberto Helder