Talvez um barco. Miguel Serras Pereira

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Podia dizer-to agora mesmo

mas do silêncio já nada me separa

ou só o tempo lento ainda de um momento

uma palavra só sem mais cansaço

Será talvez um barco se fores tu

– a chuva da manhã nos vidros limpos

e o vulto esguio perdido duna a duna

de quem regressa apenas de partida

Um pássaro esquecido brilha ainda

em dois olhares levemente embaciado

pela mesma indecisa febre antiquíssima

Podia dizer-to agora mesmo

E talvez seja um barco se fores tu

– ou serei eu talvez se for o mar

Miguel Serras Pereira

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2 thoughts on “Talvez um barco. Miguel Serras Pereira

  1. ASAS

    Nós nascemos para ter asas meus amigos.

    Não se esqueçam de escrever por dentro do peito: nós nascemos para ter asas.

    No entanto, em épocas remotas vieram com dedos pesados de ferrugem para gastar as nossas asas assim como se gastam tostões.

    Cortaram-nos as asas como se fôssemos apenas operários obedientes, estudantes atenciosos, leitores ingénuos de notícias sensacionais, gente pouca, pouca e seca.

    Apesar disso, sábios, estudiosos do arco-íris e de coisas transparentes, afirmam que as asas dos homens crescem mesmo depois de cortadas, e, novamente cortadas de novo voltam a ser.

    Aceitemos essa hipótese, apesar de não termos dela qualquer confirmação prática.

    Por hoje é tudo. Abram as janelas. Podem sair.

    José Fanha, 1985, Cartas de Marear

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