Anos quarenta, os meus. Luíza Neto Jorge

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De eléctrico andava a correr meio mundo

subia a colina ao castelo-fantasma

onde um pavão alto me aflorava muito

em sonhos, à noite. E sofria de asma

 

alma e ar reféns dentro do pulmão

(como o chimpanzé que à boca da jaula

respirava ainda pela estendida mão).

Salazar, três vezes, no eco da aula.

 

As verdiças tranças prontas a espigar

escondiam na auréola os mais duros ganchos.

E o meu coito quando jogava a apanhar

era nesse tronco do jardim dos anjos

 

que hoje inda esbraceja, numa árvore passiva.

Níqueis e organdis, espelhos e torpedos

acabou a guerra meu pai grita «Viva».

Deflagram no rio golfinhos brinquedos.

 

Já bate no cais das colunas uma

onda ultramarina onde singra um barco

pra Cacilhas e, no céu que ressuma

névoas, águas mil, um fictício arco-

 

-íris como que é, no seu cor-a-cor,

uma dor que ao pé doutra se indefine.

No cinema lis luz o projector

e o FIM através do tempo retine.

 

Luiza Neto Jorge. In: Revista Colóquio/Letras, n.º 97, Maio 1987, p. 59-60.

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