Decifração de um qualquer sonho. Eduardo Soveral

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sou emissário de um rei desconhecido
cumprindo informes ordens vindas do além

e se julgam vãos
meus gestos sem sentido
e as bruscas frases que meus lábios vêem
é porque minha glória vem desse rei
cheio de não ter sido
pastor deste povo com quem lido
feito indistinto
anómalo de sentido
suado vitória humada
e de desdém

emissário sou
e emissário cumpro
sem disfarces
as ordens
amáveis
generosas
como música longínqua
como um mistério de mares

depois

depois
quando o vento acalmar
minha missão terei de esquecer
e meu orgulho
cego por não poder ver
mergulhar neste deserto de altas tradições
onde toda a gente sabe sempre onde tem de ir

para uns serei regresso
para outros serei porvir

talvez

mas só na sombra meus pés caminham
pois antes do tempo
espaço
vida e ser
de sonho nascem as minhas sensações

a paisagem longínqua só existe
para a hora em que o silêncio assiste
à intranquilidade do meu tacto
fluído num lembrar de asas
consciências
afectos
e rotas claras

esse renovar
a grande ogiva
o fim de tudo
é espaço
é tempo

se minha alma hoje beija o quadro que pintou
e a cor deste verão
é de pasmo apagado
serei de lucidez
até não me encontrar
serei abismo entre o que sou e o que serei
onde não haverá fora nem dentro

neste meu cansaço
esquecerei
meu nome
na estrada
deste silêncio em descida

e olhando como quem sorri
este silêncio com sem-nexo
despedaçado
longe do que hoje já não fui
serei horizontal
em vez de vertical

Eduardo Soveral

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