As ondas que se encontram. Luís Miguel Nava

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As ondas que se encontram

ainda agora em formação no espírito

dele já não vêm rebentar ao meu.

Por mim não volto a vê-lo, encontros houve

com ele dos quais a alma ficou cheia de dedadas.

Já nem sequer dele quero ouvir falar,

saber que se ele

fosse uma cama estaria por fazer nada me traz

agora além de desconforto.

 

Luís Miguel Nava. Poemas, Porto: Limiar, 1987, p.59.

Whales Weep Not! D. H. Lawrence

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They say the sea is cold, but the sea contains
the hottest blood of all, and the wildest, the most urgent.

All the whales in the wider deeps, hot are they, as they urge
on and on, and dive beneath the icebergs.
The right whales, the sperm-whales, the hammer-heads, the killers
there they blow, there they blow, hot wild white breath out of
the sea!

And they rock, and they rock, through the sensual ageless ages
on the depths of the seven seas,
and through the salt they reel with drunk delight
and in the tropics tremble they with love
and roll with massive, strong desire, like gods.
Then the great bull lies up against his bride
in the blue deep bed of the sea,
as mountain pressing on mountain, in the zest of life:
and out of the inward roaring of the inner red ocean of whale-blood
the long tip reaches strong, intense, like the maelstrom-tip, and
comes to rest
in the clasp and the soft, wild clutch of a she-whale’s
fathomless body.

And over the bridge of the whale’s strong phallus, linking the
wonder of whales
the burning archangels under the sea keep passing, back and
forth,
keep passing, archangels of bliss
from him to her, from her to him, great Cherubim
that wait on whales in mid-ocean, suspended in the waves of the
sea
great heaven of whales in the waters, old hierarchies.

And enormous mother whales lie dreaming suckling their whale-
tender young
and dreaming with strange whale eyes wide open in the waters of
the beginning and the end.

And bull-whales gather their women and whale-calves in a ring
when danger threatens, on the surface of the ceaseless flood
and range themselves like great fierce Seraphim facing the threat
encircling their huddled monsters of love.
And all this happens in the sea, in the salt
where God is also love, but without words:
and Aphrodite is the wife of whales
most happy, happy she!

and Venus among the fishes skips and is a she-dolphin
she is the gay, delighted porpoise sporting with love and the sea
she is the female tunny-fish, round and happy among the males
and dense with happy blood, dark rainbow bliss in the sea.

D. H. Lawrence

Missa de aniversário. Ruy Belo

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Há um ano que os teus gestos andam

ausentes da nossa freguesia

Tu que eras destes campos

onde de novo a seara amadurece

donde és hoje?

Que nome novo tens?

Haverá mais singular fim de semana

do que um sábado assim que nunca mais tem fim?

Que ocupação é agora a tua

que tens todo o tempo livre à tua frente?

Que passos te levarão atrás

do arrulhar da pomba em nossos céus?

Que te acontece que não mais fizeste anos

embora a mesa posta continue à tua espera

e lá fora na estrada as amoreiras tenham outra vez

florido?

 

Era esta a voz dele assim é que falava

dizem agora as giestas desta sua terra

que o viram passar nos caminhos da infância

junto ao primeiro voo das perdizes

 

Já só na gravata te levamos morto àqueles caminhos

onde deixaste a marca dos teus pés

Apenas na gravata. A tua morte

deixou de nos vestir completamente

No verão em que partiste bem me lembro

pensei coisas profundas

É de novo verão. Cada vez tens menos lugar

neste canto de nós donde anualmente

te havemos piedosamente de desenterrar

Até à morte da morte

 

Belo, Ruy, «Obra Poética de Ruy Belo — volume 1, livro “Aquele Grande Rio Eufrates”», Lisboa: Editorial Presença, 1981

Pátria minha. Vinicius de Moraes

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A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.

Se me perguntarem o que é a minha pátria direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.

Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos…
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias pátria minha
Tão pobrinha!

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação e o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!

Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.

Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu…

Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda…
Não tardo!

Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.

Pátria minha… A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamem
Que um dia traduzi num exame escrito:
“Liberta que serás também”
E repito!

Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão…
Que vontade de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.

Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.

Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
“Pátria minha, saudades de quem te ama…

Vinicius de Moraes.”

Desaparecimento de Luísa Porto. Carlos Drummond de Andrade

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Pede-se a quem souber

do paradeiro de Luísa Porto

avise sua residência

À Rua Santos Óleos, 48.

Previna urgente

solitária mãe enferma

entrevada há longos anos

erma de seus cuidados.

 

Pede-se a quem avistar

Luísa Porto, de 37 anos,

que apareça, que escreva, que mande dizer

onde está.

Suplica-se ao repórter-amador,

ao caixeiro, ao mata-mosquitos, ao transeunte,

a qualquer do povo e da classe média,

até mesmo aos senhores ricos,

que tenham pena de mãe aflita

e lhe restituam a filha volatilizada

ou pelo menos dêem informações.

É alta, magra,

morena, rosto penugento, dentes alvos,

sinal de nascença junto ao olho esquerdo,

levemente estrábica.

Vestidinho simples. Óculos.

Sumida há três meses.

Mãe entrevada chamando.

 

Roga-se ao povo caritativo desta cidade

que tome em consideração um caso de família

digno de simpatia especial.

Luísa é de bom génio, correcta,

meiga, trabalhadora, religiosa.

Foi fazer compras na feira da praça.

Não voltou.

 

Levava pouco dinheiro na bolsa.

(Procurem Luísa.)

De ordinário não se demorava.

(Procurem Luísa.)

Namorado isso não tinha.

(Procurem. Procurem.)

Faz tanta falta.

 

Se, todavia, não a encontrarem

nem por isso deixem de procurar

com obstinação e confiança que Deus sempre recompensa

e talvez encontrem.

Mãe, viúva pobre, não perde a esperança.

Luísa ia pouco à cidade

e aqui no bairro é onde melhor pode ser pesquisada.

Sua melhor amiga, depois da mãe enferma,

é Rita Santana, costureira, moça desimpedida,

a qual não dá noticia nenhuma,

limitando-se a responder: Não sei.

O que não deixa de ser esquisito.

 

Somem tantas pessoas anualmente

numa cidade como o Rio de Janeiro

que talvez Luísa Porto jamais seja encontrada.

Uma vez, em 1898,

ou 9,

sumiu o próprio chefe de polícia

que saíra à tarde para uma volta no Largo do Rocio

e até hoje.

 

A mãe de Luísa, então jovem,

leu no Diário Mercantil,

ficou pasma.

O jornal embrulhado na memória.

Mal sabia ela que o casamento curto, a viuvez,

a pobreza, a paralisia, o queixume

seriam, na vida, seu lote

e que sua única filha, afável posto que estrábica,

se diluiria sem explicação.

 

Pela ultima vez e em nome de Deus

todo-poderoso e cheio de misericórdia

procurem a moça, procurem

essa que se chama Luísa Porto

e é sem namorado.

Esqueçam a luta política,

ponham de lado preocupações comerciais,

percam um pouco de tempo indagando,

inquirindo, remexendo.

Não se arrependerão. Não

há gratificação maior do que o sorriso

de mãe em festa

e a paz íntima

consequente às boas e desinteressadas acções,

puro orvalho da alma.

 

Não me venham dizer que Luísa suicidou-se.

O santo lume da fé

ardeu sempre em sua alma

que pertence a Deus e a Teresinha do Menino Jesus.

Ela não se matou.

Procurem-na.

Tampouco foi vítima de desastre

que a polícia ignora

e os jornais não deram.

Está viva para consolo de uma entrevada

e triunfo geral do amor materno

filial

e do próximo.

 

Nada de insinuações quanto à moça casta

e que não tinha, não tinha namorado.

Algo de extraordinário terá acontecido,

terremoto, chegada de rei.

As ruas mudaram de rumo,

para que demore tanto, é noite.

Mas há de voltar, espontânea

ou trazida por mão benigna,

o olhar desviado e terno,

canção.

 

A qualquer hora do dia ou da noite

quem a encontrar avise a Rua Santos Óleos.

Não tem telefone.

Tem uma empregada velha que apanha o recado

e tomará providências.

 

Mas

se acharem que a sorte dos povos é mais importante

e que não devemos atentar nas dores individuais,

se fecharem ouvidos a este apelo de campainha,

não faz mal, insultem a mãe de Luísa,

virem a página:

Deus terá compaixão da abandonada e da ausente,

erguerá a enferma, e os membros perclusos

já se desatam em forma de busca.

Deus lhe dirá:

Vai,

procura tua filha, beija-a e fecha-a para sempre em teu coração.

 

Ou talvez não seja preciso esse favor divino.

A mãe de Luísa (somos pecadores)

sabe-se indigna de tamanha graça.

E resta a espera, que sempre é um dom.

Sim, os extraviados um dia regressam

ou nunca, ou pode ser, ou ontem.

E de pensar realizamos.

Quer apenas sua filhinha

que numa tarde remota de Cachoeiro

acabou de nascer e cheira a leite,

a cólica, a lágrima.

Já não interessa a descrição do corpo

nem esta, perdoem, fotografia,

disfarces de realidade mais intensa

e que anúncio algum proverá.

Cessem pesquisas, rádios, calai-vos·

Calma de flores abrindo

no canteiro azul

onde desabrocham seios e uma forma de virgem

intacta nos tempos.

E de sentir compreendemos.

Já não adianta procurar

minha querida filha Luísa

que enquanto vagueio pelas cinzas do mundo

com inúteis pés fixados, enquanto sofro

e sofrendo me solto e me recomponho

e torno a viver e ando,

está inerte

gravada no centro da estrela invisível

Amor.

 

Carlos Drummond de Andrade

Antologia da Poesia Brasileira, vol III. Porto:Lello & Irmão Editores, 1984.

Descobrimento. António Lopes Ribeiro

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Há-de haver, pelo menos, uma ilha
que eu possa descobrir no mapa-mundo;
um mar ignoto, reservado à quilha
da minha nau, que não pode ir ao fundo.

Preparem um padrão de maravilha
que assinale o meu feito sem segundo!
(Clara certeza de aventuras, filha
da minha inquietação de vagabundo).

Onde será? Que feio Adamastor
guardará pela fôrça e por terror
o tormentoso cabo que me cabe?

Ignoro a latitude, a longitude…
Mas sei tomar a olímpica atitude
de saber coisas que mais ninguém sabe.

António Lopes Ribeiro

Decifração de um qualquer sonho. Eduardo Soveral

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sou emissário de um rei desconhecido
cumprindo informes ordens vindas do além

e se julgam vãos
meus gestos sem sentido
e as bruscas frases que meus lábios vêem
é porque minha glória vem desse rei
cheio de não ter sido
pastor deste povo com quem lido
feito indistinto
anómalo de sentido
suado vitória humada
e de desdém

emissário sou
e emissário cumpro
sem disfarces
as ordens
amáveis
generosas
como música longínqua
como um mistério de mares

depois

depois
quando o vento acalmar
minha missão terei de esquecer
e meu orgulho
cego por não poder ver
mergulhar neste deserto de altas tradições
onde toda a gente sabe sempre onde tem de ir

para uns serei regresso
para outros serei porvir

talvez

mas só na sombra meus pés caminham
pois antes do tempo
espaço
vida e ser
de sonho nascem as minhas sensações

a paisagem longínqua só existe
para a hora em que o silêncio assiste
à intranquilidade do meu tacto
fluído num lembrar de asas
consciências
afectos
e rotas claras

esse renovar
a grande ogiva
o fim de tudo
é espaço
é tempo

se minha alma hoje beija o quadro que pintou
e a cor deste verão
é de pasmo apagado
serei de lucidez
até não me encontrar
serei abismo entre o que sou e o que serei
onde não haverá fora nem dentro

neste meu cansaço
esquecerei
meu nome
na estrada
deste silêncio em descida

e olhando como quem sorri
este silêncio com sem-nexo
despedaçado
longe do que hoje já não fui
serei horizontal
em vez de vertical

Eduardo Soveral

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