Do que me lembro. J. Tolentino Mendonça

Collage conchas2

Lembro-me da música dos lugares a oeste
dos planos para esse reino amado
que pretendemos tanto tomar de assalto
antes dos brados do fogo

Mas as minhas mãos traziam já
uma sina mais escura, nem a noite

Qualquer penumbra serviu
ao meu coração oculto
a miséria do inverno
o treino dos falcões nas escarpas
a glória iludida
em que se consumiu o tempo

José Tolentino Mendonça
A noite abre meus olhos [poesia reunida], 3.ª edição, Assírio & Alvim, Lisboa, 2014.

2 thoughts on “Do que me lembro. J. Tolentino Mendonça

  1. Corsino Fortes

    DE BOCA CONCÊNTRICA NA RODA DO SOL

    I
    Depois da hora zero. E da mensagem povo no tambor da ilha
    Todas as coisas ficaram públicas na boca da república
    As rochas gritaram árvores no peito das crianças
    O sangue perto das raízes. E a seiva não longe do coração.

    E
    Os homens que nasceram da Estrela da manhã
    Assim foram
    Árvore e tambor pela alvorada
    Plantar no lábio da tua porta
    África
    mais uma espiga mais um livro mais uma roda
    Que
    Do coração da revolta
    A Pátria que nasce
    Toda a semente é fraternidade que sangra

    *
    A espingarda que atinge o topo da colina
    De cavilha & coronha
    partida partidas
    E dobra a espinha
    como enxada entre duas ilhas
    E fuma vigilante
    o seu cachimbo de paz
    Não é um mutilado de guerra
    É raiz & esfera no seu tempo & modo
    De pouca semente E muita luta
    II
    Poema! Que o tempo
    Não peça milagres
    por favor
    Que ainda ontem
    Os relógios alargavam a boca dos cemitérios
    E o silêncio dobrava o sino dos séculos que tombavam
    Que ainda ontem
    O silêncio era lei E a fome! Parlamento
    E o sangue! moeda na boca da colônia
    E a colônia era pólvora no gatilho
    De trezentos & trezentas mil almas

    III
    O homem que veio de longe
    ossos & nervo nervo & olhos
    Com a baleia no sangue E a proa no coração
    E planta os pés no umbigo da república
    E explode árvores & tambores
    De tantas bocas
    Não é um mutilado de guerra
    É um companheiro de luta

    *

    Não me peças milagres
    por favor
    pede-me revolução! Camarada
    Não & somente
    A revolta da página sob o olho da terra
    nocturno nocturna
    Mas a revolta do pão
    entre o sangue e a seiva
    Mas a revolta do rosto
    entre a roda e o mundo

    (De Árvore & Tambor, 1986)

  2. Losango-Brano
    Conyza feae
    Pequeno arbusto entre os 30cm aos 60cm, com ramas na posição vertical, possui folhas ligeiramente revestidas com pequenas folhinhas de mais ou menos 1cm de largura. Folhas amareladas, muitas pequenas, com forma agulhadas e em grandes proporções. É uma espécie endémica de Cabo Verde, rara, posicionado nas encostas pedregosas nas montanhas de Santo Antão, São Vicente, São Nicolau, Santiago, Fogo e Brava.

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