Mês: Julho 2015

Cities. Savina Akoumianaki

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In a crowded city
You have to run – to impose your nonexistence
Otherwise they’ll swallow you
I’m falling down
Into a black black hole
This city does not accept my sorrow
I cannot see my tears dropping down
I cannot taste them
Or they taste of nothing
You are looking for a cursed village
lost somewhere in an unwanted country
Named by the deadly silence of the close by forest
You cannot stay here anymore
The shadows which sun gives to the small hidden path,
The fireworks in the sky next to the lights of a luna park
And a dance under some balcan rythms
All, reminds you of the wrecks of your life
Ruins of another decade
All this wasted life
A journey with no meaning
An Ithacan with no journey
All well locked into an old treasure chest
And you try again to go
And again
But all these roots cannot be cut
The cutting produces new roots
Bigger and stronger
Ropes which tie up your wrists
They keep you here
They attract you
As a magnet attracts pins
The further you are going
The faster you return
With the force of this universal attraction
Like a natural low
And yes here I am again
Walking the same old streets
Sitting on the same rock
Drinking in the same bars
Sitting even in the same old chair
With your name engraved in its wood
Listening to the same music
Telling the same stories
Drinking again
But you still remember
But you still remain here
Trapped in an unknown but familiar world

Savina Akoumianaki

Trazido da Enfermaria 6

(imagem: Jacek Yerka)

O teatro das cidades. Gastão Cruz

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Qualquer tempo é um tempo duvidoso

assim o meu cercado de cidades
plataformas instáveis
praticáveis cobertos de infinita gente náufraga
que se inclina nas águas como um palco

Paro na convergência dos estrados
chove já sobre a raça ameaçada
Incertas multidões em volta passam
contemporâneas falam interpretam
a duvidosa língua das imagens

Assim no teatro abstracto das cidades
morrem palavras sobre um palco náufrago

O tempo cobre o céu que se enche de água

 

 

Gastão Cruz

O Pianista, 1984

E por Vezes. David Mourão-Ferreira

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E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos.

David Mourão-Ferreira, in ‘Matura Idade’

O tempo passa? Não passa. Drummond de Andrade

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O tempo passa? Não passa
no abismo do coração.
Lá dentro, perdura a graça
do amor, florindo em canção.

O tempo nos aproxima
cada vez mais, nos reduz
a um só verso e uma rima
de mãos e olhos, na luz.

Não há tempo consumido
nem tempo a economizar.
O tempo é todo vestido
de amor e tempo de amar.

O meu tempo e o teu, amada,
transcendem qualquer medida.
Além do amor, não há nada,
amar é o sumo da vida.

São mitos de calendário
tanto o ontem como o agora,
e o teu aniversário
é um nascer toda a hora.

E nosso amor, que brotou
do tempo, não tem idade,
pois só quem ama
escutou o apelo da eternidade.

Carlos Drummond de Andrade

in ‘Amar se Aprende Amando’

Do que me lembro. J. Tolentino Mendonça

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Lembro-me da música dos lugares a oeste
dos planos para esse reino amado
que pretendemos tanto tomar de assalto
antes dos brados do fogo

Mas as minhas mãos traziam já
uma sina mais escura, nem a noite

Qualquer penumbra serviu
ao meu coração oculto
a miséria do inverno
o treino dos falcões nas escarpas
a glória iludida
em que se consumiu o tempo

José Tolentino Mendonça
A noite abre meus olhos [poesia reunida], 3.ª edição, Assírio & Alvim, Lisboa, 2014.

The Azalea. John McCornack

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Do you ever wonder about Azaleas
They are special flowers of spring
With so much beauty to admire
When the spring birds begin to sing

But this bush with the funny name
Will only grow in the shade of trees
And they also require a special soil
For growing there is no guarantees

John McCornack

(foto aqui)

A Concha. Vitorino Nemésio

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A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fechada de marés, a sonhos e a lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.

E telhadosa de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta pelo vento, as salas frias.

A minha casa… Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.

Vitorino Nemésio

No silêncio dos olhos. José Saramago

Lluvia

Em que língua se diz, em que nação,
Em que outra humanidade se aprendeu
A palavra que ordene a confusão
Que neste remoinho se teceu?
Que murmúrio de vento, que dourados
Cantos de ave pousada em altos ramos
Dirão, em som, as coisas que, calados,
No silêncio dos olhos confessamos?

José Saramago, in Os Poemas Possíveis

O que Nós Vemos. Alberto Caeiro

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XXIV – O que Nós Vemos
O que nós vemos das cousas são as cousas.
Por que veríamos nós uma cousa se houvesse outra?
Por que é que ver e ouvir seria iludirmo-nos
Se ver e ouvir são ver e ouvir?
O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê
Nem ver quando se pensa.
Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender
E uma seqüestração na liberdade daquele convento
De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas
E as flores as penitentes convictas de um só dia,
Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas
Nem as flores senão flores.
Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores.