Mês: Abril 2015

Ressurreição. Miguel Torga

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Porque a forma das coisas lhe fugia,

O poeta deitou-se e teve sono.

Mais nenhuma ilusão apetecia,

Mais nenhum coração era seu dono.

 

Cada fruto maduro apodrecia;

Cada ninho morria de abandono;

Nada lutava e nada resistia,

Porque na cor de tudo havia outono.

 

Só a razão da vida via mais:

Terra, sementes, caules, animais

Descansavam apenas um momento.

 

E o vencido poeta despertou

Vivo como a certeza dum rebento

Na seiva do poema que sonhou.

 

miguel torga

libertação

Para não deixar de amar-te nunca. Pablo Neruda

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Saberás que não te amo e que te amo
pois que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem a sua metade de frio.Amo-te para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda.

Amo-te e não te amo como se tivesse
nas minhas mãos a chave da felicidade
e um incerto destino infeliz.

O meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo.

Pablo Neruda, Cem Sonetos de Amor

Cantigas de valor. Paulo Freire

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Há cantigas medíocres,
Que nem animam a gente para cantá-las.
Há silêncios necessários
Há discursos impossíveis
Há corpos que se desnudam contra princípios
Há purezas que se maculam
Há memórias olvidadas
Há coisas que se dizem, mas não se fazem
Há coisas que se fazem, mas não se dizem
É preciso cantar cantigas de valor
Diminuir a distância entre fazer e falar.
Paulo Freire

Saudade. Florbela Espanca

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Saudades! Sim.. talvez.. e por que não?…
Se o sonho foi tão alto e forte
Que pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!

Esquecer! Para quê?… Ah, como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como o pão.

Quantas vezes, Amor, já te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar
Mais decididamente me lembrar de ti!

E quem dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais saudade andasse presa a mim!

Florbela Espanca, Livro de Sóror Saudade

Ainda que Mal. Carlos Drummond de Andrade

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Ainda que mal pergunte,
ainda que mal respondas;
ainda que mal te entenda,
ainda que mal repitas;
ainda que mal insista,
ainda que mal desculpes;
ainda que mal me exprima,
ainda que mal me julgues;
ainda que mal me mostre,
ainda que mal me vejas;
ainda que mal te encare,
ainda que mal te furtes;
ainda que mal te siga,
ainda que mal te voltes;
ainda que mal te ame,
ainda que mal o saibas;
ainda que mal te agarre,
ainda que mal te mates;
ainda assim te pergunto
e me queimando em teu seio,
me salvo e me dano: amor.

Carlos Drummond de Andrade, in ‘As Impurezas do Branco’

The Lovers’ Litany. Rudyard Kipling

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Eyes of grey -- a sodden quay,
Driving rain and falling tears,
As the steamer wears to sea
In a parting storm of cheers.
  Sing, for Faith and Hope are high --
  None so true as you and I --
  Sing the Lovers' Litany:
  "Love like ours can never die!"

Eyes of black -- a throbbing keel,
Milky foam to left and right;
Whispered converse near the wheel
In the brilliant tropic night.
  Cross that rules the Southern Sky!
  Stars that sweep and wheel and fly,
  Hear the Lovers' Litany:
  Love like ours can never die!"

Eyes of brown -- a dusy plain
Split and parched with heat of June,
Flying hoof and tightened rein,
Hearts that beat the old, old tune.
  Side by side the horses fly,
  Frame we now the old reply
  Of the Lovers' Litany:
  "Love like ours can never die!"

Eyes of blue -- the Simla Hills
Silvered with the moonlight hoar;
Pleading of the waltz that thrills,
Dies and echoes round Benmore.
  "Mabel," "Officers," "Good-bye,"
  Glamour, wine, and witchery --
  On my soul's sincerity,
  "Love like ours can never die!"

Maidens of your charity,
Pity my most luckless state.
Four times Cipid's debtor I --
Bankrupt in quadruplicate.
  Yet, despite this evil case,
  And a maiden showed me grace,
  Four-and-forty times would I
  Sing the Lovers' Litany:
  "Love like ours can never die!"

Rudyard Kipling

If. Rudyard Kipling

blue clematis

If you can keep your head when all about you

Are losing theirs and blaming it on you;

If you can trust yourself when all men doubt you,

But make allowance for their doubting too;

If you can wait and not be tired by waiting,

Or being lied about, don’t deal in lies,

Or being hated, don’t give way to hating,

And yet don’t look too good, nor talk too wise:

 

If you can dream — and not make dreams your master;

If you can think — and not make thoughts your aim;

If you can meet with Triumph and Disaster

And treat those two imposters just the same;

If you can bear to hear the truth you’ve spoken

Twisted by knaves to make a trap for fools,

Or watch the things you gave your life to, broken,

And stoop and build ‘em up with worn-out tools;

 

If you can make one heap of all your winnings

And risk it on one turn of pitch-and-toss,

And lose, and start again at your beginnings

And never breathe a word about your loss;

If you can force your heart and nerve and sinew

To serve your turn long after they are gone,

And so hold on when there is nothing in you

Except the Will which says to them: “Hold on!”

 

If you can talk with crowds and keep your virtue,

Or walk with kings — nor lose the common touch,

If neither foes nor loving friends can hurt you,

If all men count with you, but none too much;

If you can fill the unforgiving minute

With sixty seconds’ worth of distance run —

Yours is the Earth and everything that’s in it,

And — which is more — you’ll be a Man, my son!

 

Rudyard Kipling

site de Rudyard Kipling

Uma a uma. Ricardo Reis

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Uma após uma as ondas apressadas
Enrolam o seu verde movimento
E chiam a alva 'spuma
No moreno das praias.
Uma após uma as nuvens vagarosas
Rasgam o seu redondo movimento
E o sol aquece o 'spaço
Do ar entre as nuvens 'scassas.
Indiferente a mim e eu a ela,
A natureza deste dia calmo
Furta pouco ao meu senso
De se esvair o tempo.
Só uma vaga pena inconsequente
Para um momento à porta da minha alma
E após fitar-me um pouco
Passa, a sorrir de nada. 

Ricardo Reis

Claridade. Miguel Torga

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Clareou.
Vieram pombas e sol,
e, de mistura com Sonho,
pousou tudo num telhado...
(Eu, destas grades, a ver,
desconfiado.)

Depois,
uma rapariga loira,
(era loira)
num mirante
estendeu roupa num cordel:
Roupa branca, remendada,
que se via
que era de gente lavada,
e só por isso aquecia...

E não foi preciso mais:
Logo a alma
clareou por sua vez.
Logo o coração parado
bateu a grande pancada
da vida com sol e pombas
e roupa branca, lavada.

Lisboa, Cadeia do Aljube, 1 de Fevereiro de 1940

Miguel Torga

É fácil trocar as palavras. Fernando Pessoa

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É fácil trocar as palavras
Dificil é interpretar os silêncios!
É fácil caminhar lado a lado,
Difícil é saber como se encontrar!

É fácil beijar o rosto,
Difícil é chegar ao coração!

É fácil apertar as mãos,
Difícil é reter o calor!

É fácil sentir o amor,
Difícil é conter sua torrente!

Como é por dentro outra pessoa?
Quem é que o saberá sonhar?

A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.

Nada sabemos da alma
Senão da nossa;

As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,

Com a suposição
De qualquer semelhança no fundo.”

Fernando Pessoa