Mês: Março 2015

Nada é impossível de mudar. Bertold Brecht

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Desconfiai do mais trivial,
na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente:
não aceiteis o que é de hábito
como coisa natural.
Pois em tempo de desordem sangrenta,
de confusão organizada,
de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada,
nada deve parecer natural.
Nada deve parecer impossível de mudar.

Bertold Brecht

La noche. Calderón de la Barca

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Esos rasgos de luz, esas centellas

que cobran con amagos superiores

alimentos del sol en resplandores,

aquello viven que se duele de ellas.

 

Flores nocturnas son: aunque tan bellas,

efímeras, padecen sus ardores;

pues si un día es el siglo de las flores,

una noche es la edad de las estrellas.

 

De esa, pues, primavera fugitiva,

ya nuestro mal, ya nuestro bien se infiere;

registro es nuestro, o muera el sol o viva.

 

¿Qué duración habrá que el hombre espere,

o qué mudanza habrá que no reciba

de astro que cada noche nace y muere?

 

Caldéron de la Barca

Gosto quando te calas. Pablo Neruda

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Gosto quando te calas

Gosto quando te calas porque estás como ausente,
e me ouves de longe, minha voz não te toca.
Parece que os olhos tivessem de ti voado
e parece que um beijo te fechara a boca.

Como todas as coisas estão cheias da minha alma
emerge das coisas, cheia da minha alma.
Borboleta de sonho, pareces com minha alma,
e te pareces com a palavra melancolia.

Gosto de ti quando calas e estás como distante.
E estás como que te queixando, borboleta em arrulho.
E me ouves de longe, e a minha voz não te alcança:
Deixa-me que me cale com o silêncio teu.

Deixa-me que te fale também com o teu silêncio
claro como uma lâmpada, simples como um anel.
És como a noite, calada e constelada.
Teu silêncio é de estrela, tão longinquo e singelo.

Gosto de ti quando calas porque estás como ausente.
Distante e dolorosa como se tivesses morrido.
Uma palavra então, um sorriso bastam.
E eu estou alegre, alegre de que não seja verdade.

Pablo Neruda

 

Segunda meditação. Ingmar Heytze

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Alguém te sopra como se fosses um dente-de-leão.

Nua, flutuas no escuro e não sabes –

o que é escuridão, ou luz, ou tu, ou existência.

E no entanto as sementes dançam à tua volta,

filamentos a caminho do nada. Talvez um caia em terra fofa.

A probabilidade de germinar é extraordinariamente pequena,

mas tudo flutua. Tudo junto és tu.

 

Ingmar Heytze

Primeira meditação. Ingmar Heytze

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És a única árvore no mundo que recusa

crescer em direcção à luz. Em vez disso enterras-te

com raízes cada vez mais profundas,

camada de terra após camada, tempo passado,

rumo ao calor, e calculas já estar a meio caminho.

Depressa deixas de sentir as toupeiras, minhocas

ou raízes de outros seres, tetra-cego das cavernas

na sua noite infinita. O frio é cada vez maior.

Não sabes se consegues crescer a distância necessária

para encontrares o magma. Estás só, mas a caminho.

 

INGMAR HEYTZE

poema aqui

A construção do corpo. António Ramos Rosa.

the coming glory

Sempre a tentativa nunca vã…
O equilíbrio musical dos instrumentos,
a paciência do teu pulso suave e certo,
o teu rosto mais largo e a calma força
que sobe e que modelas palmo a palmo,
rio que ascende como um tronco em plena sala.
A tua casa habita entre o silêncio e o dia.
Entre a calma e a luz o movimento é livre.

Acordar a leve chama veia a veia,
erguê-la do fundo e solta propagá-la
aos membros e ao ventre, até ao peito e às mãos
e que a cabeça ascenda, cordial corola plena.
Todo o corpo é uma onda, uma coluna flexível.
Respiras lentamente. A terra inteira é viva.
E sentes o teu sangue harmonioso e livre
correr ligado à água, ao ar, ao fogo lúcido.

No interior centro cálido abre-se a flor de luz,
rigor suave e óleo, música de músculos, roda
lenta girando das ancas ao busto ondeado
e cada vez mais ampla a onda livre ondula
a todo o corpo uno, num respirar de vela.
Sobre a toalha de água, à luz de um sol real,
dança e respira, respira e dança a vida,
o seu corpo é um barco que o próprio mar modela.

António Ramos Rosa