Triptico II. Herberto Helder

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Não sei como dizer-te que minha voz te procura

e a atenção começa a florir, quando sucede a noite

esplêndida e vasta.

Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos

se enchem de um brilho precioso

e estremeces como um pensamento chegado. Quando,

iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado

pelo pressentir de um tempo distante,

e na terra crescida os homens entoam a vindima

– eu não sei como dizer-te que cem ideias,

dentro de mim, te procuram.

 

Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros

ao lado do espaço

e o coração é uma semente inventada

em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,

tu arrebatas os caminhos da minha solidão

como se toda a casa ardesse pousada na noite.

– E então não sei o que dizer

junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.

Quando as crianças acordam nas luas espantadas

que às vezes se despenham no meio do tempo

– não sei como dizer-te que a pureza,

dentro de mim, te procura.

 

Durante a primavera inteira aprendo

os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto

correr do espaço –

e penso que vou dizer algo cheio de razão,

mas quando a sombra cai da curva sôfrega

dos meus lábios, sinto que me faltam

um girassol, uma pedra, uma ave – qualquer

coisa extraordinária.

Porque não sei como dizer-te sem milagres

que dentro de mim é o sol, o fruto,

a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,

o amor,

que te procuram.

 

Herberto Helder

Ou o Poema contínuo

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One thought on “Triptico II. Herberto Helder

  1. Os Gregos
    Sophia de Mello Breyner Andresen

    Aos deuses supúnhamos uma existência cintilante
    Consubstancial ao mar à nuvem ao arvoredo à luz
    Neles o longo friso branco das espumas o tremular da vaga
    A verdura sussurrada e secreta do bosque o oiro erecto do trigo
    O meandro do rio o fogo solene da montanha
    E a grande abóbada do ar sonoro e leve e livre
    Emergiam em consciência que se vê
    Sem que se perdesse o um-boda-e-festa do primeiro dia —
    Esta existência desejávamos para nós próprios homens
    Por isso repetíamos os gestos rituais que estabelecem
    O estar-ser-inteiro inicial das coisas —
    Isto nos tornou atentos a todas as formas que a luz do sol conhece
    E também à treva interior por que somos habitados
    E dentro da qual navega indicível o brilho

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