Mês: Janeiro 2015

Desencontro. Jorge de Sena

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Só quem procura sabe como há dias

de imensa paz deserta; pelas ruas

a luz perpassa dividida em duas:

a luz que pousa nas paredes frias,

outra que oscila desenhando estrias

nos corpos ascendentes como luas

suspensas, vagas, deslizantes, nuas,

alheias, recortadas e sombrias.

E nada coexiste. Nenhum gesto

a um gesto corresponde; olhar nenhum

perfura a placidez, como de incesto,

de procurar em vão; em vão desponta

a solidão sem fim, sem nome algum –

– que mesmo o que se encontra não se encontra.

 

Jorge de Sena

Diálogo. Cecília Meireles

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Minhas palavras são a metade de um diálogo obscuro

continuando através de séculos impossíveis.

Agora compreendo o sentido e a ressonância

que também trazes de tão longe em tua voz.

Nossas perguntas e resposta se reconhecem

como os olhos dentro dos espelhos. Olhos que choraram.

Conversamos dos dois extremos da noite,

como de praias opostas. Mas com uma voz que não se importa…

E um mar de estrelas se balança entre o meu pensamento e o teu.

Mas um mar sem viagens.

 

Cecília Meireles

Triptico II. Herberto Helder

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Não sei como dizer-te que minha voz te procura

e a atenção começa a florir, quando sucede a noite

esplêndida e vasta.

Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos

se enchem de um brilho precioso

e estremeces como um pensamento chegado. Quando,

iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado

pelo pressentir de um tempo distante,

e na terra crescida os homens entoam a vindima

– eu não sei como dizer-te que cem ideias,

dentro de mim, te procuram.

 

Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros

ao lado do espaço

e o coração é uma semente inventada

em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,

tu arrebatas os caminhos da minha solidão

como se toda a casa ardesse pousada na noite.

– E então não sei o que dizer

junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.

Quando as crianças acordam nas luas espantadas

que às vezes se despenham no meio do tempo

– não sei como dizer-te que a pureza,

dentro de mim, te procura.

 

Durante a primavera inteira aprendo

os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto

correr do espaço –

e penso que vou dizer algo cheio de razão,

mas quando a sombra cai da curva sôfrega

dos meus lábios, sinto que me faltam

um girassol, uma pedra, uma ave – qualquer

coisa extraordinária.

Porque não sei como dizer-te sem milagres

que dentro de mim é o sol, o fruto,

a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,

o amor,

que te procuram.

 

Herberto Helder

Ou o Poema contínuo

Teatro político. José Miguel Silva

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Quando tudo é mentira,
a mentira torna-se invisível
como o dedo do encenador.

O pano sobe, de fumo,
e nada representa nada
nem ninguém.

Às escuras, o público sorri,
o público aplaude, julgando
seguir, entender a história.

Se um grama de verdade,
todavia, custa hoje
setecentas ilusões apodrecidas

e o preço da entrada
é suspensão da descrença,
só de fora é perceptível

o entrecho da decomposição,
com seus ritos e porquês
assinalados a vermelho:

o vinho do desejo cultivado
em bardos de necessidade,
a bolha esburacada da democracia,

a corrente de facadas e suturas
a que chamamos progresso,
o beco sem saída da evolução.

Cão Celeste, n.º 4, Lisboa, 2013

Ponto sombra. Inês Dias

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Um nó cego no bordado
da manhã. E a ternura
interrompida pelo desfazer
dos dias até esse olhar
depois de tudo,
onde aguardava,
cauda de fora, a morte:

passar sob a pele
(uma dor mais antiga)
a linha que já
não nos prende,
cortá-la com o último beijo,
rematar um coração
cada vez mais do avesso.

Inês Dias

Memory, Karin Boye

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Quietly I want to thank my fate:
never shall I be completely without you.
As a pearl grows in an oyster,
so inside me
your dewy essence sweetly grows.
I finally one day I have forgotten you
-then will you be blood of my blood,
then will you and I be one –
it is in the power of the gods.

Karin Boye

etapas, Torquato da Luz

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Não te detenhas nos corredores sombrios,
são apenas etapas que importa ultrapassar.
De qualquer modo, não passam de episódios
e têm forçosamente um fim.

Os precipícios só existem
na cabeça de quem os inventa.

Nunca cedas ao medo das viagens longas,
de que a vida também se faz.

Na primeira carruagem dos comboios nocturnos
viaja sempre a madrugada.

Quando o sol te acordar, verás que o pesadelo
não passou disso mesmo, um pesadelo.

Torquato da Luz

A paz sem vencedor e sem vencidos. Sophia de Mello Breyner Andresen

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“Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Que o tempo que nos deste seja um novo
Recomeço de esperança e de justiça
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Erguei o nosso ser à transparência
Para podermos ler melhor a vida
Para entendermos vosso mandamento
Para que venha a nós o vosso reino
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Fazei Senhor que a paz seja de todos
Dai-nos a paz que nasce da verdade
Dai-nos a paz que nasce da justiça
Dai-nos a paz chamada liberdade
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos”

Sophia de Mello Breyner Andresen, ‘Dual’

Dies Irae. Miguel Torga

liberation Marcin Ryczek

Apetece cantar,mas ninguém canta.

Apetece chorar, mas ninguém chora.

Um fantasma levanta

A mão do medo sobre a nossa hora.

 

Apetece gritar, mas ninguém grita.

Apetece fugir, mas ninguém foge.

Um fantasma limita

Todo o futuro a este dia de hoje.

 

Apetece morrer,mas ninguém morre.

Apetece matar, mas ninguém mata.

Um fantasma percorre

Os motins onde a alma se arrebata.

 

Miguel Torga

foto de Marcin Ryczek

Poema. Ferreira Gullar

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Se morro
universo se apaga como se apagam
as coisas deste quarto
se apago a lâmpada:
os sapatos – da – ásia, as camisas
e guerras na cadeira, o paletó –
dos – andes,
bilhões de quatrilhões de seres
e de sóis
morrem comigo.
Ou não:
o sol voltará a marcar
este mesmo ponto do assoalho
onde esteve meu pé;
deste quarto
ouvirás o barulho dos ônibus na rua;
uma nova cidade
surgirá de dentro desta
como a árvore da árvore.
Só que ninguém poderá ler no esgarçar destas nuvens
a mesma história que eu leio, comovido.

 Ferreira Gullar

Às vezes estrelas. Ingmar Heytze

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Os vizinhos da esquerda, ar reformado

sobre um telhado entre paredes exteriores.

À direita, uma mulher que fala com a televisão

e todas as noites adormece antes das dez.

Debaixo: homem que acorda assustado

se algures alguém abre uma torneira.

Por cima: pombos. De vez em quando uma andorinha.

Às vezes estrelas. Mas mais frequentemente

a trovoada me visita.

No dia primeiro de um novo ano, sobre poesia

“No outro dia, perguntaram-me para que serve a poesia. Eu disse que ela servia para nos livrarmos, nem que por uns segundos valentes, da noção de utilidade. E de noções que lhe são parasitas, como as de transmitir uma mensagem, ou a de que essa mensagem contenha em si um certo grau de razoabilidade. Acho que comunicar alguma coisa é um incidente ocasional no poema. Quando pensamos em linguagem, pensamos em comunicar. Mas a poesia é sobretudo um gesto. Esse gesto pode estar representado na mão que mendiga, na mão que acena, naquela que esmurra, etc. A coloração que se atribui a esse gesto é, para o efeito, indiferente. Falo de coloração no sentido de falar de linguagem, do abc da poesia. O abc da poesia não é feito para comunicar, no sentido em que se comunicam coisas como: “este livro é sobre a guerra-colonial portuguesa”, ou “o PIB aumentou”, ou “este frango está frio”. A poesia não diz propriamente coisas. Ela atribui uma luz especial à ginástica emotiva de quem quer dizer certas coisas. A linguagem na poesia, no contexto da comunicação, é um fundo perdido. O mesmo já não se pode dizer do estalo da língua. Quando tentamos perceber um surdo-mudo, ouvimos grunhidos e esse estalo da língua. O mesmo se passa quando uma pessoa nos fala em modos emocionalmente inflacionados: quando essa pessoa está furiosa ou quando é picada pelo êxtase, ou quando num certo dia acordou tantos degraus abaixo da cama (e portanto de um nível socialmente aceitável de andar por aqui) que só sabe arrastar a boca por mesas de café e descansar a cabeça por onde calha. Para mim, a poesia é o esboço possível destes estados de alerta. Que mensagem se pode esperar de uma pessoa que tem, no momento em que é olhada, o cano de uma arma apontado à cabeça? Ou que informação importante, no mundo das coisas importantes, se pode sacar de uma pessoa que anda aos pulos por ter agarrado um momento a que por decoro os académicos chamam epifania, mas que é só a excitação de ter agarrado por instantes o eu escorregadio dentro das águas do hábito, e de o ter olhado nos olhos, no sofrimento de se debater fora dessas águas? A poesia também é isto: vermos o peixe moribundo no convés, contorcermo-nos com ele antes de o atirarmos ao mar. É tão sangrento que não o podemos comer. Fazer poemas é descrever os segundos em que olhámos o nosso próprio jogo de contorção. Ninguém pode viver só disto. Já foi tentado, alguns deram um tiro na cabeça, outros afogaram-se, foram atrás do seu peixe. Ninguém pode viver só disto, mas de vez em quando escrevem-se livros. E alguns até são de poesia.”

Frederico Brandão, trazido d’aqui