Mês: Dezembro 2014

Tragédia. Ruy Cinatti

nunomorais

E o tempo, o próprio tempo sequioso, boquiaberto,
ladeia muros, amplia-se em deserto
vivo solilóquio que me acomoda os passos,
em derredor penumbra, afinidade.

Branco como a cal que o comemora
sinto nele a verdade, o pasmo do encontro
e bebo água ungida por cadáveres,
alheado da vida que suporto.

E vou deslumbrado pelo mundo,
recolhendo ossos, desfazendo pegadas,
refazendo o ser que me enamora,
tecendo a minha própria eternidade.

– Ruy Cinatti
in 75 Poemas, Averno

O meu olhar. Alberto Caeiro

girassol

II

O meu olhar é nítido como um girassol.

Tenho o costume de andar pelas estradas

Olhando para a direita e para a esquerda,

E de, vez em quando olhando para trás…

E o que vejo a cada momento

É aquilo que nunca antes eu tinha visto,

E eu sei dar por isso muito bem…

Sei ter o pasmo essencial

Que tem uma criança se, ao nascer,

Reparasse que nascera deveras…

Sinto-me nascido a cada momento

Para a eterna novidade do Mundo…

Creio no mundo como num malmequer,

Porque o vejo.  Mas não penso nele

Porque pensar é não compreender …

 

O Mundo não se fez para pensarmos nele

(Pensar é estar doente dos olhos)

Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…

 

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos…

Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,

Mas porque a amo, e amo-a por isso,

Porque quem ama nunca sabe o que ama

Nem sabe por que ama, nem o que é amar …

Amar é a eterna inocência,

E a única inocência não pensar…

 

alberto caeiro

o guardador de rebanhos

Capricio. Marin Sorescu

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Todas as noites
Junto as cadeiras da vizinhança,
As disponíveis,
E leio-lhes versos.
 
As cadeiras são muito receptivas
À poesia
Se soubermos como as dispor.
 
Por isso
Fico emocionado,
E durante algumas horas
Conto-lhes
A morte maravilhosa da minha alma
Ao longo do dia.
 
Os nossos encontros
São habitualmente sóbrios,
Sem entusiasmos
Inúteis.
 
Seja como for,
É possível dizer-se:
Cada um fez o seu dever,
E pode seguir
Adiante.


marin sorescu

simetria

Sonnet XLIII. Elizabeth Barrett Browning

2014-11-01 11.45.44

How do I love thee? Let me count the ways.
I love thee to the depth and breadth and height
My soul can reach, when feeling out of sight
For the ends of Being and ideal Grace.
I love thee to the level of everyday’s
Most quiet need, by sun and candle-light.
I love thee freely, as men strive for Right;
I love thee purely, as they turn from Praise.
I love thee with the passion put to use
In my old griefs, and with my childhood’s faith.
I love thee with a love I seemed to lose
With my lost saints,—I love thee with the breath,
Smiles, tears, of all my life!—and, if God choose,
I shall but love thee better after death.

Elizabeth Barrett Browning