Mês: Outubro 2014

O livro. João Pedro Mésseder

reading in a clock

Era um sonho?

Eram lobos, grilos, corvos,

tartarugas, raposões,

bichas de sete cabeças,

unicórnios e dragões,

dromedários e chacais

e outros bichos que tais.

Eram fadas, bruxas, príncipes,

ogres, fantasmas, meninos,

labirintos e palácios,

minas, grutas e florestas.

Eram ilhas e desertos,

cidades do faroeste,

gelos eternos e selvas

e pirâmides do Egipto.

Mas também havia escolas,

casas ricas, bairros pobres,

esquadras, polícias, ladrões

e gente de muitas nações.

Viajei em aviões,

navios e foguetões,

em botas de sete léguas

e tapetes voadores.

Naveguei em caravelas,

desenterrei um tesouro,

naufraguei nos mares do sul,

vi escravos agrilhoados,

lutei com piratas,

vilões entre pragas, maldições.

Vi o Pinóquio e a Alice,

o Polegarzinho, o Ulisses,

o Simbad e o Ali Babá,

Cinderela, Peter Pan,

Iracema e Iratan,

o lindo Palhaço Verde,

a gorda Dona Redonda,

e a fina Salta-Pocinhas.

Vi a Emília e o Visconde,

Dona Benta, Narizinho,

Capuchinho e a avozinha,

o Tom Sawyer, o Jim Hawkins e a muleta de John Silver

Quando o sonho terminou

e as pálpebras abri,

tinha ao meu lado uma estante

com todos os livros que li.

 

João Pedro Mésseder

 

Fumo. Florbela Espanca

tumblr_m0ot4f0tUO1qefrmxo1_500

Longe de ti são ermos os caminhos
Longe de ti não há luar nem rosas
Longe de ti há noites silenciosas
Há dias sem calor, beirais sem ninhos

Meus olhos são dois velhos pobrezinhos
Perdidos pelas noites invernosas
Abertos sonham mãos cariciosas
Tuas mãos doces, plenas de carinho

Os dias são outonos: choram, choram
Há crisântemos roxos que descoram
Há murmúrios dolentes de segredo
Invoco o nosso sonho, entendo os braços

e é ele oh meu amor, pelos espaços
fumo leve que foge entre os meus dedos.

Florbela Espanca

Epigrama. Nuno Júdice

2014-10-03 13.42.10

 

A loucura é a grandeza dos simples:

assim são eles mais do que eles,

colhendo flores brancas e reles.

 

Os doidos, de olhos arregalados,

crescem devagar como as árvores:

só não dão folhas nem frutos.

 

Amo as suas frases sem sentido:

dobram nelas os sinos abstractos

de um campanário sem janelas.

 

Dai-me, ó loucos, a vossa razão

– esses remos de subir o tempo

até a fonte de um deus obsceno e nu.

 

Nuno Júdice

Carpe Diem. Nuno Júdice

2014-10-03 14.13.10

 

Confias no incerto amanhã? Entregas

às sombras do acaso a resposta inadiável?

Aceitas que a diurna inquietação da alma

substitua o riso claro de um corpo

que te exige o prazer? Fogem-te, por entre os dedos,

os instantes; e nos lábios dessa que amaste

morre um fim de frase, deixando a dúvida

definitiva. Um nome inútil persegue a tua memória,

para que o roubes ao sono dos sentidos. Porém,

nenhum rosto lhe dá a forma que desejarias;

e abraças a própria figura do vazio. Então,

por que esperas para sair ao encontro da vida,

do sopro quente da primavera, das margens

visíveis do humano? “Não”, dizes, “nada me obrigará

à renúncia de mim próprio — nem esse olhar

que me oferece o leito profundo da sua imagem!”

Louco, ignora que o destino, por vezes,

se confunde com a brevidade do verso.

 

Nuno Júdice

What the thunder said. T.S. Elliot

2014-10-03 13.40.19

 

These fragments I have shored against my ruins

T.S.Elliot

 

In

WHAT THE THUNDER SAID

After the torch-light red on sweaty faces

After the frosty silence in the gardens

After the agony in stony places

The shouting and the crying

Prison and place and reverberation

Of thunder of spring over distant mountains

He who was living is now dead

We who were living are now dying

With a little patience

Here is no water but only rock

Rock and no water and the sandy road

The road winding above among the mountains

Which are mountains of rock without water

If there were water we should stop and drink

Amongst the rock one cannot stop or think

Sweat is dry and feet are in the sand

If there were only water amongst the rock

Dead mountain mouth of carious teeth that cannot spit

Here one can neither stand nor lie nor sit

There is not even silence in the mountains

But dry sterile thunder without rain

There is not even solitude in the mountains

But red sullen faces sneer and snarl

From doors of mud-cracked houses

If there were water

And no rock

If there were rock

And also water

And water

A spring

A pool among the rock

If there were the sound of water only

Not the cicada

And dry grass singing

But sound of water over a rock

Where the hermit-thrush sings in the pine trees

Drip drop drip drop drop drop drop

But there is no water

Who is the third who walks always beside you?

When I count, there are only you and I together

But when I look ahead up the white road

There is always another one walking beside you

Gliding wrapt in a brown mantle, hooded

I do not know whether a man or a woman

—But who is that on the other side of you?

What is that sound high in the air

Murmur of maternal lamentation

Who are those hooded hordes swarming

Over endless plains, stumbling in cracked earth

Ringed by the flat horizon only

What is the city over the mountains

Cracks and reforms and bursts in the violet air

Falling towers

Jerusalem Athens Alexandria

Vienna London

Unreal

A woman drew her long black hair out tight

And fiddled whisper music on those strings

And bats with baby faces in the violet light

Whistled, and beat their wings

And crawled head downward down a blackened wall

And upside down in air were towers

Tolling reminiscent bells, that kept the hours

And voices singing out of empty cisterns and exhausted wells.

In this decayed hole among the mountains

In the faint moonlight, the grass is singing

Over the tumbled graves, about the chapel

There is the empty chapel, only the wind’s home.

It has no windows, and the door swings,

Dry bones can harm no one.

Only a cock stood on the roof-tree

Co co rico co co rico

In a flash of lightning. Then a damp gust

Bringing rain

Ganga was sunken, and the limp leaves

Waited for rain, while the black clouds

Gathered far distant, over Himavant.

The jungle crouched, humped in silence.

Then spoke the thunder

DA

Datta: what have we given?

My friend, blood shaking my heart

The awful daring of a moment’s surrender

Which an age of prudence can never retract

By this, and this only, we have existed

Which is not to be found in our obituaries

Or in memories draped by the beneficent spider

Or under seals broken by the lean solicitor

In our empty rooms

DA

Dayadhvam: I have heard the key

Turn in the door once and turn once only

We think of the key, each in his prison

Thinking of the key, each confirms a prison

Only at nightfall, aetherial rumours

Revive for a moment a broken Coriolanus

DA

Damyata: The boat responded

Gaily, to the hand expert with sail and oar

The sea was calm, your heart would have responded

Gaily, when invited, beating obedient

To controlling hands

I sat upon the shore

Fishing, with the arid plain behind me

Shall I at least set my lands in order?

London Bridge is falling down falling down falling down

Poi s’ascose nel foco che gli affina

Quando fiam ceu chelidon—O swallow swallow

Le Prince d’Aquitaine à la tour abolie

These fragments I have shored against my ruins

Why then Ile fit you. Hieronymo’s mad againe.

Datta. Dayadhvam. Damyata.

 

FONTE AQUI

Soneto do amigo. Vinicius de Moraes

IMGP2463

Enfim, depois de tanto erro passado
Tantas retaliações, tanto perigo
Eis que ressurge noutro o velho amigo
Nunca perdido, sempre reencontrado.

É bom sentá-lo novamente ao lado
Com olhos que contêm o olhar antigo
Sempre comigo um pouco atribulado
E como sempre singular comigo.

Um bicho igual a mim, simples e humano
Sabendo se mover e comover
E a disfarçar com o meu próprio engano.

O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica…

Vinicius de Moraes

 

Ele procurou por muito tempo. Thomas Möhlmann

tumblr_m1k8gvz3lk1qkqtb0o1_500_large

 
Cada passo diminui e aumenta o número de possibilidades
mas não as possibilidades que ele procura
tem de haver outro caminho que não este, mas assim que ele o toma,
tem de haver outro caminho. Abordou pessoas
apresentou-se sob nomes diferentes e perguntou se
as pessoas sabiam onde estavam. No mar alto, no umbigo do mundo
à beira de jardinzinhos bem-tratados: ninguém sabia.
Onde o ar era tão rarefeito que ele tinha vertigens, onde
o ar denso lhe cortava a respiração, onde todos
se ofendiam mutuamente, onde ninguém se atreveria ir,
onde todos deveriam ter estado: ninguém sabia.
Thomas Möhlmann
De vloeibare jongen (O Rapaz Liquefeito)

Guarda tu agora o que eu, subitamente, perdi. Mª do Rosário Pedreira

IMG_0789

Guarda tu agora o que eu, subitamente, perdi
talvez para sempre ― a casa e o cheiro dos livros,
a suave respiração do tempo, palavras, a verdade,
camas desfeitas algures pela manhã,
o abrigo de um corpo agitado no seu sono.

Guarda-o
serenamente e sem pressa, como eu nunca soube.

E protege-o de todos os invernos ― dos caminhos
de lama e das vozes mais frias. Afaga-lhe
as feridas devagar, com as mãos e os lábios,
para que jamais sangrem. E ouve, de noite,
a sua respiração cálida e ofegante
no compasso dos sonhos, que é onde esconde
os mais escondidos medos e anseios.

Não deixes nunca que se ouça sozinho no que diz
antes de adormecer. E depois aguarda que,

na escuridão do quarto, seja ele a abraçar-te,
ainda que não te tenha revelado uma só vez o que queria.

Acorda mais cedo e demora-te a olhá-lo à luz azul
que os dias trazem à casa quando são tranquilos.

E nada lhe peças de manhã ― as manhãs pertencem-lhe;
deixa-o a regar os vasos na varanda e sai,
atravessa a rua enquanto ainda houver sol.

E assim
haverá sempre sol e para sempre o terás,
como para sempre o terei perdido eu, subitamente,
por assim não ter feito.

 

Mª do Rosário Pedreira

in A casa e o cheiro dos livros (Quetzal, 1996)

in Poesia reunida (Quetzal, 2012)

Estações alciónicas… Marguerite Yourcenar

IMG_1950

Estações alciónias,
solstício dos meus dias …

Longe de embelezar, à distância,
a minha felicidade,
devo lutar para lhe não turvar a imagem;
a sua própria recordação
é hoje demasiado forte para mim.

Mais sincero que a maioria dos homens,
confesso sem rodeios
as causas secretas dessa felicidade:
aquela calma tão propícia aos trabalhos
e às disciplinas
parece-me um dos mais belos efeitos
do amor.

E espanto-me
de que estas alegrias tão precárias,
tão raramente perfeitas no decorrer de uma vida humana,
sob qualquer aspecto
além de que nós os tenhamos procurado
e recebido,
sejam consideradas com tanta desconfiança
por pretendidos sábios,
que eles receiem o seu hábito e excesso
em vez de temer a sua falta e perda,
que passem a tiranizar os sentidos
um tempo que seria mais bem empregado
a ordenar ou a embelezar a alma.

Naquela época
punha em fortalecer a minha felicidade, apreciá-la,
e também em julgá-la,
a atenção que sempre dispensara aos mais pequenos pormenores
dos meus actos;
e que é a própria voluptuosidade
senão um momento de atenção apaixonada do corpo?

Toda a felicidade é uma obra-prima:
o menor erro falseia-a,
a menor hesitação altera-a,
a menor deselegância desfeia-a,
a menor estupidez embrutece-a.

A minha
não é responsável em coisa alguma por aquelas
das minhas imprudências
que mais tarde a quebraram.

Julgo ainda
que teria sido possível a um homem mais hábil que eu
ser feliz até à morte.

marguerite yourcenar
memórias de adriano
trad. maria lamas
ulisseia
1974

O caminho de casa. Manuel António Pina

IMG_1955

XII

«As palavras fazem

sentido (o tempo que levei a descobrir isto!),

um sentido justo,

feito de mais palavras.

(A impossibilidade de falar

e de ficar calado

não pode parar de falar,

escrevi eu ou outro).

Volto a casa,

ao princípio,

provavelmente um pouco mais velho.

As mesmas árvores,

mais velhas,

a lembrança delas

passando sem tempo nos meus olhos,

como uma ideia feita ou como um sentimento.

Entre o que regressa

e o que partiu um dia

ficaram palavras;

talvez (quem sabe?)

algum sentido.

Agora, como um intruso, subo as

escadas e abro a porta; e entro, vivo,

para fora de alguma coisa morta.

Senta-te aqui, fala comigo,

faz sentido

e totalidade à minha volta!»

 

manuel antónio pina

poesia reunida

assírio & alvim

2012

Canto Moço. José Afonso

IMGP8247
Somos filhos da madrugada
Pelas praias do mar nos vamos
À procura de quem nos traga
Verde oliva de flor no ramo
Navegámos de vaga em vaga
Não soubemos de dor nem mágoa
Pelas praias do mar nos vamos
À procura da manhã clara

Lá do cimo duma montanha
Acendemos uma fogueira
Para não se apagar a chama
Que dá vida na noite inteira
Mensageira pomba chamada
Companheira da madrugada
Quando a noite vier que venha
Lá do cimo duma montanha

Onde o vento cortou amarras
Largaremos pela noite fora
Onde há sempre uma boa estrela
Noite e dia ao romper da aurora
Vira a proa minha galera
Que a vitória já não espera
Fresca brisa moira encantada
Vira a proa da minha barca

José Afonso

O poema. Sophia de Mello Breyner Andresen,

costacaparica

O poema me levará no tempo
Quando eu já não for eu
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê

O poema alguém o dirá
Às searas

Sua passagem se confundirá
Com o rumor do mar com o passar do vento

O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento

No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas

(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)

Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas

E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo

Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto