Terra. Fernando Namora

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Onde ficava o mundo?
Só pinhais, matos, charnecas e milho
para a fome dos olhos.

Para lá da serra, o azul de outra serra e outra serra ainda.
E o mar? E a cidade? E os Rios?
Caminhos de pedra, sulcados, curtos e estreitos,
onde chiam carros de bois e há poças de chuva.
Onde ficava o mundo?
Nem a alma sabia julgar.

Mas vieram engenheiros e máquinas estranhas.
Em cada dia o povo abraçava outro povo.
E hoje a terra é livre e fácil como o céu das aves:
a estrada branca e menina é uma serpente ondulada
e dela nasce a sede da fuga como as águas dum rio.»

Fernando Namora

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4 thoughts on “Terra. Fernando Namora

  1. Enquanto
    António Gedeão

    Enquanto houver um homem caído de bruços no passeio
    e um sargento que lhe volta o corpo com a ponta do pé
    para ver como é;
    enquanto o sangue gorgolejar das artérias abertas
    e correr pelos interstícios das pedras,
    pressuroso e vivo como vermelhas minhocas despertas;
    enquanto as crianças de olhos lívidos e redondos como luas,
    órfãs de pais e de mães,
    andarem acossadas pelas ruas
    como matilhas de cães;
    enquanto as aves tiverem de interromper o seu canto
    com o coraçãozinho débil a saltar-lhes do peito fremente,
    num silêncio de espanto
    rasgado pelo grito da sereia estridente;
    enquanto o grande pássaro de fogo e alumínio
    cobrir o mundo com a sombra escaldante das suas asas
    amassando na mesma lama de extermínio
    os ossos dos homens e as traves das suas casas;
    enquanto tudo isso acontecer, e o mais que não se diz por ser verdade,
    enquanto for preciso lutar até ao desespero da agonia,
    o poeta escreverá com alcatrão nos muros da cidade
    Abaixo o mistério da poesia.

    1. Poesia:

      “words set to music” (Dante
      via Pound), “uma viagem ao
      desconhecido” (Maiakóvski), “cernes
      e medulas” (Ezra Pound), “a fala do
      infalável” (Goethe), “linguagem
      voltada para a sua própria
      materialidade” (Jakobson),
      “permanente hesitação entre som e
      sentido” (Paul Valery), “fundação do
      ser mediante a palavra” (Heidegger),
      “a religião original da humanidade”
      (Novalis), “as melhores palavras na
      melhor ordem” (Coleridge), “emoção
      relembrada na tranquilidade”
      (Wordsworth), “ciência e paixão”
      (Alfred de Vigny), “se faz com
      palavras, não com ideias” (Mallarmé),
      “música que se faz com ideias”
      (Ricardo Reis/Fernando Pessoa), “um
      fingimento deveras” (Fernando
      Pessoa), “criticismo of life” (Mathew
      Arnold), “palavra-coisa” (Sartre),
      “linguagem em estado de pureza
      selvagem” (Octavio Paz), “poetry is to
      inspire” (Bob Dylan), “design de
      linguagem” (Décio Pignatari), “lo
      impossible hecho possible” (Garcia
      Lorca), “aquilo que se perde na
      tradução (Robert Frost), “a liberdade
      da minha linguagem” (Paulo Leminski)…

      Leminski

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