Sucata. José Régio

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I

Fecha esses olhos, fecha-os,

Que a sua luz ofende.

Mas não! arranca-os, deixa-os

Na praça em que se vende

Toda a sucata inútil.

Quiçá os compre um velho poeta fútil.

II

A sua luza ofende, humilha.

Não compartilha

Das pequeninas luzes

Que alumiam os vários alcatruzes

De cada nova nora.

Fecha esses olhos, fecha-os, ou arranca-os, deita-os fora!

Não vês que vão perdendo todo o emprego?

Desfaz-te de eles, ─ fica cego.

III

Na praça em que se vende

Toda a sucata inútil,

Quiçá os compre um velho poeta fútil.

Já nada, a este, ofende.

Servir-lhe-ão

Talvez de claridade,

Talvez de companhia ou diversão.

Coitado! Vive ao pé da Eternidade.

 

José Régio, Cântico suspenso, 1968

 

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