Mês: Julho 2014

Emprego e desemprego do poeta. Ruy Belo

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Deixai que em suas mãos cresça o poema

como o som do avião no céu sem nuvens

ou no surdo verão as manhãs de domingo

Não lhe digais que é mão-de-obra a mais

que o tempo não está para a poesia

 

Publicar versos em jornais que tiram milhares

talvez até alguns milhões de exemplares

haverá coisa que se lhe compare?

Grandes mulheres como semiramis

públia hortênsia de castro ou vitória colonna

todas aquelas que mais íntimo morreram

não fizeram tanto por se imortalizar

 

Oh que agradável não é ver um poeta em exercício

chegar mesmo a fazer versos a pedido

versos que ao lê-los o mais arguto crítico em vão procuraria

quem evitasse a guerra maiúsculas-minúsculas melhor

Bem mais do que a harmonia entre os irmãos

o poeta em exercício é como azeite precioso derramado

na cabeça e na barba de aarão

 

Chorai profissionais da caridade

pelo pobre poeta aposentado

que já nem sabe onde ir buscar os versos

Abandonado pela poesia

oh como são compridos para ele os dias

nem mesmo sabe aonde pôr as mãos

 

Ruy Belo

Ode à amizade. Filinto Elísio

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Se depois do infortúnio de nascermos
Escravos da Doença e dos Pesares
Alvos de Invejas, alvos de Calúnias
Mostrando-nos a campa
A cada passo aberta o Mar e a Terra;
Um raio despedido, fuzilando
Terror e morte, no rasgar das nuvens
O tenebroso seio
A Divina Amizade não viera
Com piedosa mão limpar o pranto,
Embotar com dulcíssono conforto
As lanças da Amargura;
O Sábio espedaçara os nós da vida
Mal que a Razão no espelho da Experiência
Lhe apontasse apinhados inimigos
C’o as cruas mãos armadas;
Terna Amizade, en teu altar tranquilo
Ponho – por que hoje, e sempre arda perene
O vago coração, ludíbrio e jogo
Do zombador Tirano.
Amor me deu a vida: a vida enjeito,
Se a Amizade a não doura, a não afaga;
Se com mais fortes nós, que a Natureza,
Lhe não ata os instantes.
Que só ditosos são na aberta liça
Dois mortais, que nos braços da Amizade,
Estreitos se unem, bebem de teu seio
Nectárea valentia.
Tu cerceias o mal, o bem dilatas,
E as almas que cultivas cuidadosa,
Com teu suave alento aformosentam-se
Medradas e viçosas.
Caia a Desgraça, mais que o raio aguda
Rebente sobre a fronte ao mal votada,
Mais lenta é a queda, menos cala o golpe
No manto da Amizade:
E se desce o Prazer, com ledo rosto
A alumiar o peito de Filinto,
A chama sobe, e vai prender seu lume
Na alma do fido Amigo.

Filinto Elísio

Da terra. Fiama Hasse Pais Brandão

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Amar o mar completa a minha vida

com o tacto de um amor imenso.

Amar ateia a margem

arrebata-me de júbilo e paixão.

Mas veio o vento e, por momentos,

amargurou o meu corpo, o oscilar.

E está o sol aqui, depois de uns dias

de jardim obscurecido, a beber sombra.

E sei que os átomos zumbem

e dançam como os insectos

ébrios em redor do pólen.

 

Fiama Hasse Pais Brandão

as fábulas

quasi

2002

Passagem. José Miguel Silva

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Em Segóvia há uma praça,

na praça uma varanda, na varanda

o rasto de ninguém.

 

Mas tens uma cadeira no café,

abundante chá de tília,

a certeza de que dentro duma hora

vai abrir-se para ti

a livraria da esquina.

 

É pouco mas sossega,

sob o bolso da camisa,

o motim do coração.

 

 

José Miguel Silva

ulisses já não mora aqui

língua morta

2014

Mestre, são plácidas. Ricardo Reis

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Mestre, são plácidas
Todas as horas
Que nós perdemos,
Se no perdê-las,
Qual numa jarra,
Nós pomos flores.

Não há tristezas
Nem alegrias
Na nossa vida.
Assim saibamos,
Sábios incautos,
Não a viver,

Mas decorrê-la,
Tranquilos, plácidos,
Tendo as crianças
Por nossas mestras,
E os olhos cheios
De Natureza…

À beira-rio,
À beira-estrada,
Conforme calha,
Sempre no mesmo
Leve descanso
De estar vivendo.

O Tempo passa,
Não nos diz nada.
Envelhecemos.
Saibamos, quasi
Maliciosos,
Sentir-nos ir.

Não vale a pena
Fazer um gesto.
Não se resiste
Ao deus atroz
Que os próprios filhos
Devora sempre.

Colhamos flores.
Molhemos leves
As nossas mãos
Nos rios calmos,
Para aprendermos
Calma também.

Girassóis sempre
Fitando o sol,
Da vida iremos
Tranquilos, tendo
Nem o remorso
De ter vivido.
Ricardo Reis

in Poesia, ed. Assírio & Alvim
imagem: Albert Ernst Muhling, winter storm

Sabedoria. Francisco José Viegas

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gostava de saber dizer-te como se vem de longe
num pincel de rembrandt desde os lugares do junco
ou da selva ou da água ou só do norte e da neve

e nos sentamos aqui sob o azul dos plátanos: um
murmúrio incessante do mover das aves

suave é esta a sabedoria
conhecer os instantes gomo a gomo como um fruto
ainda verde a querer despontar iluminar-se e colhê-lo
breve nos nossos dedos inteiro

e sob a nossa voz a nossa boca o nosso olhar
não estar nenhum rumor nenhum silêncio nenhum gesto

Francisco José Viegas