Mês: Julho 2014

Saudação. Ezra Pound

IMG_1816

Oh geração dos afetados consumados

e consumadamente deslocados,

Tenho visto pescadores em piqueniques ao sol,

Tenho-os visto, com suas famílias mal-amanhadas,

Tenho visto seus sorrisos transbordantes de dentes

e escutado seus risos desengraçados.

E eu sou mais feliz que vós,

E eles eram mais felizes do que eu;

E os peixes nadam no lago

e não possuem nem o que vestir.

 

Ezra Pound

Anúncios

Quero uma vida em forma de espinha. Boris Vian

IMG_1048

 

Quero uma vida em forma de espinha

 

Num prato azul

 

Quero uma vida em forma de coisa

 

No fundo dum sítio sozinho

 

Quero uma vida em forma de areia nas minhas mãos

 

Em forma de pão verde ou de cântara

 

Em forma de sapata mole

 

Em forma de tanglomanglo

 

De limpa-chaminés ou de lilás

 

De terra cheia de calhaus

 

De cabeleireiro selvagem ou de édredon louco

 

Quero uma vida em forma de ti

 

E tenho-a mas ainda não é bastante

 

Eu nunca estou contente

 

 

 

 

 

 

Boris Vian

 

canções e poemas

 

tradução de irene freire nunes e fernando cabral martins

 

assírio & alvim

 

1997

 

After a while you learn… Veronica Shoffstall

Love and clouds by Gianstefano Fontana
After a while you learn the subtle difference
Between holding a hand and chaining a soul,
And you learn that love doesn’t mean leaning
And company doesn’t mean security,
And you begin to learn that kisses aren’t contracts
And presents aren’t promises,
And you begin to accept your defeats
With your head up and your eyes open
With the grace of a woman, not the grief of a child,
And you learn to build all your roads on today,
Because tomorrow’s ground is too uncertain for plans,
And futures have a way of falling down in mid-flight.
After a while you learn
That even sunshine burns if you get too much.
So you plant your own garden and decorate your own soul,
Instead of waiting for someone to bring you flowers.
And you learn that you really can endure…
That you really are strong,
And you really do have worth.
And you learn and learn…
With every goodbye you learn.
Veronica Shoffstall, “Comes the Dawn”

Tapas os caminhos que vão dar a casa, Mª Tereza Horta

Tapas os caminhos que vão dar a casa
Cobres os vidros das janelas
Recolhes os cães para a cozinha
Soltas os lobos que saltam as cancelas

Pões guardas atentos espiando no jardim
Madrastas nas histórias inventadas
Anjos do mal voando sem ter fim
Destróis todas as pistas que nos salvam

Depois secas a água e deitas fora o pão
Tiras a esperança
Rejeitas a matriz
E quando já só restam os sinais
Convocas devagar os vendavais

Maria Tereza Horta

Não sou a areia, Lya Luft

carkeek-dawn-water1-med

Não sou a areia
onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.
Não sou apenas a pedra que rola
nas marés do mundo,
em cada praia renascendo outra.
Sou a orelha encostada na concha
da vida, sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou
mistério
A quatro mãos escrevemos este roteiro
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu.
Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos
a sério.

Lya Luft

Desaparecimentos. Paul Auster

IMG_3505

 

1

 

De pura solidão, ele recomeça ─

 

como se fosse a última vez

que respirasse,

 

e é por isso agora

 

que pela primeira vez respira

para além do alcance

do singular.

 

Está vivo, e ele não é senão por isso

o que se afoga no insondável poço

do seu olho,

 

e o que ele vê

é tudo o que ele não é: a cidade

 

da indecifrável

ocorrência,

 

e logo a língua das pedras,

pois ele sabe que por toda a vida

uma pedra

dará lugar a outra pedra

para fazer uma parede

 

e que estas pedras todas

farão a soma monstruosa

 

da singularidade.

 

 

Paul Auster

poemas escolhidos

tradução de rui lage

quasi

2002