Mês: Julho 2014

Há sem dúvida quem ame o infinito, Alvaro de Campos

espinho e gota

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser…

Alvaro de Campos

as mãos pressentem a levez rubra do lume, Al Berto

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As mãos pressentem a leveza rubra do lume
repetem gestos semelhantes a corolas de flores
voos de pássaro ferido no marulho da alba
ou ficam assim azuis
queimadas pela secular idade desta luz
encalhada como um barco nos confins do olhar

ergues de novo as cansadas e sábias mãos
tocas o vazio de muitos dias sem desejo
e o amargor húmido das noites e tanta ignorância
tanto ouro sonhado sobre a pele tanta treva
quase nada

Al Berto

O lugar da casa. Eugénio de Andrade

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Uma casa que fosse um areal
deserto; que nem casa fosse;
só um lugar
onde o lume foi aceso, e à sua roda
se sentou a alegria; e aqueceu
as mãos; e partiu porque tinha
um destino; coisa simples
e pouca, mas destino
crescer como árvore, resistir
ao vento, ao rigor da invernia,
e certa manhã sentir os passos
de abril
ou, quem sabe?, a floração
dos ramos, que pareciam
secos, e de novo estremecem
com o repentino canto da cotovia.

Eugénio de Andrade



			

Antítese. Nuno Júdice

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Navego num largo mar de enganos,
guiado pela estrela cega do horizonte.
O meu destino está inscrito nestes anos
em que o tempo nasce de uma futura fonte.

Assim, o que foi ontem está para ser,
passado que vive num presente sem nós,
como o rio que, para correr, nasce na foz;
e tudo o que vi ainda está para se ver,

tal como o silêncio que fala nesta voz.
O caminho faz-se quando se está parado,
barco que anda sem haver vento;

e só quem está certo pode ser enganado
quando, ao pensar, perde o pensamento,
e em tudo o que sonha só vê o passado.

 

Nuno Júdice

Side of the road. José Tolentino Mendonça

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Ateei o fogo
quebrei as portas de bronze
desfiz sinais nas pedras lisas
enlouqueci os adivinhos

minha língua tornou-se tão
estranha
que não se pode entender

as multidões vitoriosas
levantam em teu nome grinaldas
tamboris e danças
despojos de várias
cores

tomo o caminho por onde vieste
tropeçando como os que não
têm olhos

José Tolentino Mendonça
a estrada branca
assírio & alvim
2005

Fábula da flor artificial. György Somlyó

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São tal e qual como as verdadeiras, seria de esperar que falassem.

Simplesmente não falam.

São belas como as verdadeiras rosas.

Mas um pouco mais belas.

Com mais plenitude.

Todas as espécies estão presentes. E cada qual a mais perfeita.

Do pénis do botão fechado aos lábios desabrochados das pétalas.

As que estão semiabertas, as que o estão totalmente.

E a gama das cores do amarelo profundo ao quase branco.

Iguais hoje àquilo que foram ontem.

E ainda iguais amanhã.

Ignorando o tempo e dele ignoradas.

Como elas zombam de ti, meu antigo desejo:

Anotar a álgebra de uma rosa do irradiar ao declínio.

 

Não se pode viver com uma rosa que não murcha.

 

 

György Somlyó

poemas

tradução de egito gonçalves

Saudação. Ezra Pound

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Oh geração dos afetados consumados

e consumadamente deslocados,

Tenho visto pescadores em piqueniques ao sol,

Tenho-os visto, com suas famílias mal-amanhadas,

Tenho visto seus sorrisos transbordantes de dentes

e escutado seus risos desengraçados.

E eu sou mais feliz que vós,

E eles eram mais felizes do que eu;

E os peixes nadam no lago

e não possuem nem o que vestir.

 

Ezra Pound

Quero uma vida em forma de espinha. Boris Vian

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Quero uma vida em forma de espinha

 

Num prato azul

 

Quero uma vida em forma de coisa

 

No fundo dum sítio sozinho

 

Quero uma vida em forma de areia nas minhas mãos

 

Em forma de pão verde ou de cântara

 

Em forma de sapata mole

 

Em forma de tanglomanglo

 

De limpa-chaminés ou de lilás

 

De terra cheia de calhaus

 

De cabeleireiro selvagem ou de édredon louco

 

Quero uma vida em forma de ti

 

E tenho-a mas ainda não é bastante

 

Eu nunca estou contente

 

 

 

 

 

 

Boris Vian

 

canções e poemas

 

tradução de irene freire nunes e fernando cabral martins

 

assírio & alvim

 

1997

 

After a while you learn… Veronica Shoffstall

Love and clouds by Gianstefano Fontana
After a while you learn the subtle difference
Between holding a hand and chaining a soul,
And you learn that love doesn’t mean leaning
And company doesn’t mean security,
And you begin to learn that kisses aren’t contracts
And presents aren’t promises,
And you begin to accept your defeats
With your head up and your eyes open
With the grace of a woman, not the grief of a child,
And you learn to build all your roads on today,
Because tomorrow’s ground is too uncertain for plans,
And futures have a way of falling down in mid-flight.
After a while you learn
That even sunshine burns if you get too much.
So you plant your own garden and decorate your own soul,
Instead of waiting for someone to bring you flowers.
And you learn that you really can endure…
That you really are strong,
And you really do have worth.
And you learn and learn…
With every goodbye you learn.
Veronica Shoffstall, “Comes the Dawn”

Tapas os caminhos que vão dar a casa, Mª Tereza Horta

Tapas os caminhos que vão dar a casa
Cobres os vidros das janelas
Recolhes os cães para a cozinha
Soltas os lobos que saltam as cancelas

Pões guardas atentos espiando no jardim
Madrastas nas histórias inventadas
Anjos do mal voando sem ter fim
Destróis todas as pistas que nos salvam

Depois secas a água e deitas fora o pão
Tiras a esperança
Rejeitas a matriz
E quando já só restam os sinais
Convocas devagar os vendavais

Maria Tereza Horta

Não sou a areia, Lya Luft

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Não sou a areia
onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.
Não sou apenas a pedra que rola
nas marés do mundo,
em cada praia renascendo outra.
Sou a orelha encostada na concha
da vida, sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou
mistério
A quatro mãos escrevemos este roteiro
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu.
Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos
a sério.

Lya Luft

Desaparecimentos. Paul Auster

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1

 

De pura solidão, ele recomeça ─

 

como se fosse a última vez

que respirasse,

 

e é por isso agora

 

que pela primeira vez respira

para além do alcance

do singular.

 

Está vivo, e ele não é senão por isso

o que se afoga no insondável poço

do seu olho,

 

e o que ele vê

é tudo o que ele não é: a cidade

 

da indecifrável

ocorrência,

 

e logo a língua das pedras,

pois ele sabe que por toda a vida

uma pedra

dará lugar a outra pedra

para fazer uma parede

 

e que estas pedras todas

farão a soma monstruosa

 

da singularidade.

 

 

Paul Auster

poemas escolhidos

tradução de rui lage

quasi

2002

Emprego e desemprego do poeta. Ruy Belo

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Deixai que em suas mãos cresça o poema

como o som do avião no céu sem nuvens

ou no surdo verão as manhãs de domingo

Não lhe digais que é mão-de-obra a mais

que o tempo não está para a poesia

 

Publicar versos em jornais que tiram milhares

talvez até alguns milhões de exemplares

haverá coisa que se lhe compare?

Grandes mulheres como semiramis

públia hortênsia de castro ou vitória colonna

todas aquelas que mais íntimo morreram

não fizeram tanto por se imortalizar

 

Oh que agradável não é ver um poeta em exercício

chegar mesmo a fazer versos a pedido

versos que ao lê-los o mais arguto crítico em vão procuraria

quem evitasse a guerra maiúsculas-minúsculas melhor

Bem mais do que a harmonia entre os irmãos

o poeta em exercício é como azeite precioso derramado

na cabeça e na barba de aarão

 

Chorai profissionais da caridade

pelo pobre poeta aposentado

que já nem sabe onde ir buscar os versos

Abandonado pela poesia

oh como são compridos para ele os dias

nem mesmo sabe aonde pôr as mãos

 

Ruy Belo

Ode à amizade. Filinto Elísio

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Se depois do infortúnio de nascermos
Escravos da Doença e dos Pesares
Alvos de Invejas, alvos de Calúnias
Mostrando-nos a campa
A cada passo aberta o Mar e a Terra;
Um raio despedido, fuzilando
Terror e morte, no rasgar das nuvens
O tenebroso seio
A Divina Amizade não viera
Com piedosa mão limpar o pranto,
Embotar com dulcíssono conforto
As lanças da Amargura;
O Sábio espedaçara os nós da vida
Mal que a Razão no espelho da Experiência
Lhe apontasse apinhados inimigos
C’o as cruas mãos armadas;
Terna Amizade, en teu altar tranquilo
Ponho – por que hoje, e sempre arda perene
O vago coração, ludíbrio e jogo
Do zombador Tirano.
Amor me deu a vida: a vida enjeito,
Se a Amizade a não doura, a não afaga;
Se com mais fortes nós, que a Natureza,
Lhe não ata os instantes.
Que só ditosos são na aberta liça
Dois mortais, que nos braços da Amizade,
Estreitos se unem, bebem de teu seio
Nectárea valentia.
Tu cerceias o mal, o bem dilatas,
E as almas que cultivas cuidadosa,
Com teu suave alento aformosentam-se
Medradas e viçosas.
Caia a Desgraça, mais que o raio aguda
Rebente sobre a fronte ao mal votada,
Mais lenta é a queda, menos cala o golpe
No manto da Amizade:
E se desce o Prazer, com ledo rosto
A alumiar o peito de Filinto,
A chama sobe, e vai prender seu lume
Na alma do fido Amigo.

Filinto Elísio

Da terra. Fiama Hasse Pais Brandão

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Amar o mar completa a minha vida

com o tacto de um amor imenso.

Amar ateia a margem

arrebata-me de júbilo e paixão.

Mas veio o vento e, por momentos,

amargurou o meu corpo, o oscilar.

E está o sol aqui, depois de uns dias

de jardim obscurecido, a beber sombra.

E sei que os átomos zumbem

e dançam como os insectos

ébrios em redor do pólen.

 

Fiama Hasse Pais Brandão

as fábulas

quasi

2002

Passagem. José Miguel Silva

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Em Segóvia há uma praça,

na praça uma varanda, na varanda

o rasto de ninguém.

 

Mas tens uma cadeira no café,

abundante chá de tília,

a certeza de que dentro duma hora

vai abrir-se para ti

a livraria da esquina.

 

É pouco mas sossega,

sob o bolso da camisa,

o motim do coração.

 

 

José Miguel Silva

ulisses já não mora aqui

língua morta

2014

Mestre, são plácidas. Ricardo Reis

Albert Ernst Muhling_winter storm

Mestre, são plácidas
Todas as horas
Que nós perdemos,
Se no perdê-las,
Qual numa jarra,
Nós pomos flores.

Não há tristezas
Nem alegrias
Na nossa vida.
Assim saibamos,
Sábios incautos,
Não a viver,

Mas decorrê-la,
Tranquilos, plácidos,
Tendo as crianças
Por nossas mestras,
E os olhos cheios
De Natureza…

À beira-rio,
À beira-estrada,
Conforme calha,
Sempre no mesmo
Leve descanso
De estar vivendo.

O Tempo passa,
Não nos diz nada.
Envelhecemos.
Saibamos, quasi
Maliciosos,
Sentir-nos ir.

Não vale a pena
Fazer um gesto.
Não se resiste
Ao deus atroz
Que os próprios filhos
Devora sempre.

Colhamos flores.
Molhemos leves
As nossas mãos
Nos rios calmos,
Para aprendermos
Calma também.

Girassóis sempre
Fitando o sol,
Da vida iremos
Tranquilos, tendo
Nem o remorso
De ter vivido.
Ricardo Reis

in Poesia, ed. Assírio & Alvim
imagem: Albert Ernst Muhling, winter storm

Sabedoria. Francisco José Viegas

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gostava de saber dizer-te como se vem de longe
num pincel de rembrandt desde os lugares do junco
ou da selva ou da água ou só do norte e da neve

e nos sentamos aqui sob o azul dos plátanos: um
murmúrio incessante do mover das aves

suave é esta a sabedoria
conhecer os instantes gomo a gomo como um fruto
ainda verde a querer despontar iluminar-se e colhê-lo
breve nos nossos dedos inteiro

e sob a nossa voz a nossa boca o nosso olhar
não estar nenhum rumor nenhum silêncio nenhum gesto

Francisco José Viegas

Véspera. Thiago de Mello

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A véspera já é certeza
que se antecipa chegando
no gosto do que vai ser.

A véspera já aconchega
a tua ausência no riso
com que sabes receber.

Tudo é véspera no amor.
No instante em que se inaugura
minha carícia em teu peito,

ela se sonha descendo,
no dorso da madrugada
pelo côncavo perfeito

dos quadris que se iluminam
quando a luz da minha língua
trabalha a felicidade

misteriosa que se abriga
numa floresta de pêlos,
cidadela da verdade

que tem de clave o meu nome,
e só por isso se entreabre,
desmurada por meu sonho,

para me entregar o sol
que vai acender a vida
toda que vivi de véspera.

 

Thiago de Mello

As perguntas. Francisco José Viegas

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Não tem rosto, o Deus dos perplexos. Nem voz.
Nem arrependimento. Nem a alegria dos alegres
ou o medo da escuridão. Não posso dizer-vos como
se encontram os seus caminhos, se o melro poisa

nas hortas junto do rio, ao adivinhar a tempestade.
Deus predador, o nosso, prudente, interdito,
que desagrada ao canto mais simples. As nossas
pegadas ficam no deserto, aguardam a passagem

como um fantasma que se desprende da chuva.
Esta luz é incerta, balança sobre as varandas, ameaça
os dias, converte ou desarma todas as palavras certas,

todos os olhos abertos. Não tem rosto, o Deus dos
perplexos, não caminha nos precipícios, não arde
como a urze fitando o céu, não o comove a morte.

Francisco José Viegas
(de O Puro e o Impuro, Quasi edições, 2003)

Porque não sou um pintor. Frank O’Hara

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Eu não sou um pintor, sou um poeta.

Porquê? Penso que preferia ser

um pintor, mas não sou. Bom,

 

Mike Goldberg, por exemplo,

está a iniciar um quadro. Eu apareço.

«Senta-te e toma uma bebida» diz

ele. Eu bebo; nós bebemos. Reparo

«Tu tens SARDINHAS aí.»

«Sim, precisava de qualquer coisa ali.»

«Oh.» Eu saio e os dias passam

e eu apareço de novo. O quadro

avança, e eu saio, e os dias

passam. Eu apareço. O quadro está

terminado. «Onde estão SARDINHAS?»

O que resta são apenas

letras. «Era demasiado», diz Mike.

 

E eu? Um dia estou a pensar numa

cor: laranja. Escrevo uma linha

acerca de laranja. Em breve é uma

página que está cheia, não de linhas, de palavras.

Depois outra página. Deveria haver

muitíssimo mais, não laranja,

palavras, como é terrível o laranja

e a vida. Os dias passam. Acontece ser

em prosa, sou um verdadeiro poeta. O meu poema

está terminado e ainda nem sequer mencionei

o laranja. São doze poemas, chamo-lhes

LARANJAS. E um dia numa galeria

vejo o quadro de Mike, chamado SARDINHAS.

 

 

 

Frank O’Hara

vinte e cinco poemas à hora do almoço

trad. josé alberto de oliveira

assírio & alvim

1995

Ofício. Gastão Cruz

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Os poemas que não fiz não os fiz porque estava
dando ao meu corpo aquela espécie de alma
que não pôde a poesia nunca dar-lhe

Os poemas que fiz só os fiz porque estava
pedindo ao corpo aquela espécie de alma
que somente a poesia pode dar-lhe

Assim devolve o corpo a poesia
que se confunde com o duro sopro
de quem está vivo e às vezes não respira.

Gastão Cruz

Aviso de mobilização. David Mourão Ferreira

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Passaram pelo meu nome e eu era um número

– menos que a folha seca de um herbário.

Colheram-no com mãos de zelo e gelo;

escreveram-no, sem mágoa, num postal.

 

 

Convite a que morresse. .. mas por quê?

Convite a que matasse. .. mas por quem?

Ó vago amanuense, ó apressado

e súbito verdugo, que te ocultas

numa rubrica rápida, ilegível,

que dirás tu do meu e de outros nomes,

que dirás tu de mim e de outros mais,

no Dia do Juízo já tão próximo

– que dirás tu de nós, se nem tremeu,

na rápida rubrica, a tua mão?

 

Bem sei que a tua mão só executa;

mas para além do ombro a ti pertences.

Bem puderas chorar, ter hesitado. . .

– A mancha de uma lágrima bastara

para dar um sentido a esta morte

a que a tua indiferença nos convoca!

 

 

 

david mourão ferreira

tempestade de verão

1954

8. Lao-Tzu

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8

The supreme good is like water,
Which nourishes all things without trying to.
It is content with the low places that people disdain.
Thus it is like the Tao.

In dwelling, live close to the ground.
In thinking, keep to the simple.
In conflict, be fair and generous.
In governing, don’t try to control.
In work, do what you enjoy.
In family life, be completely present.

When you are content to be simply yourself
And don’t compare or compete,
Everybody will respect you

 

Lao Tzu

Tao Te Ching, all poems

Tao Te Ching 11. Lao Tzu

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We join spokes together in a wheel,
but it is the center hole
that makes the wagon move.

We shape clay into a pot,
but it is the emptiness inside
that holds whatever we want.

We hammer wood for a house,
but it is the inner space
that makes it livable.

We work with being,
but non-being is what we use.
― Lao Tzu