Mês: Junho 2014

Anúncio. Toni Montesinos Gilbert

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Procuro mulher sincera e cautelosa,

bela, hábil na cozinha e na cama,

de boa linhagem, sabia e eficiente,

que seja cuidadosa, terna, doce,

extrovertida e de aspecto elegante.

 

Que se dispa lentamente e tenha

carta de condução, uma carreira,

olhos grandes e boca muito suave.

 

Nem muitos nem poucos anos: os necessários.

 

Deverá, ainda assim, dar-me alegria.

 

Tem de praticar desporto, e gostar

de música clássica e de leitura;

atenta e sociável com os meus amigos.

 

Não interessa a cor do cabelo,

a raça ou a cultura. Quero apenas amá-la.

Quero que, ao vê-la, a vida comece.

Procuro apenas uma mulher preparada

para viver a minha prolongada morte.

 

Tomi Montesinos Gilbert

Tradução de Manuel de Freitas

(imagem Lydia Cornell)

 

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Vida de areia. Toni Montesinos Gilbert

Beach Macro_themesforiphone_Flickr

Quem dera que fosse feito de pó azul

para me diluir em todas as almas.

Se o meu corpo fosse pó a voar

passagens de céu, com um pouco

de frialdade, mereceria as mortes

irrecuperáveis, para sempre já

empoeirados pela sua ausência histórica.

 

Perderam-se, ficaram sem sangue.

E foi porque ninguém voltou a chamá-las.

E começaram a sonhar com montanhas,

e mais tarde com pedras, depois com areia

do tempo deserto. E por fim, com pó.

O sonho solitário conduziu-as

a cavar o amor numa estrela,

junto do que nunca puderam ter.

 

Eu quero chegar a todas as almas,

ser azul para distender o tempo,

ser um horizonte entre vida e morte,

esperar os amanheceres lento,

como se voltasse a nascer, azulado.

 

Quem dera que estivesse fora do século,

sem correspondência com nenhum espaço

concreto, sentir-me livre como pó

diluído em qualquer das ruas

conhecidas por onde caminhei.

Ser a presença total e absoluta.

Possuir o olhar omnipresente…

 

Mas apenas sou de carne e osso.

Um dia morrerei e não poderei pensar,

nunca mais, como construir um relógio

para sentir a vida mais extensa.

 

Toni Montesinos Gilbert

poesia espanhola, anos 90

trad. Joaquim Manuel Magalhães

relógio d´água

2000

Sonhe e seja o que você quiser. Clarice Lispector

 

Sonhe com o que você quiser.

Vá para onde você queira ir.

Seja o que você quer ser, porque você possui apenas uma vida

…e nela só temos uma chance de fazer aquilo que queremos.

Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.

Dificuldades para fazê-la forte.

Tristeza para fazê-la humana.

E esperança suficiente para fazê-la feliz.

…..

Clarice Lispector

Homens que são como lugares. Daniel Faria

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Homens que são como lugares mal situados
Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens sem fuso horário
Homens agitados sem bússola onde repousem

Homens que são como fronteiras invadidas
Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados por todos os destinos
Desempregados das suas vidas

Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas

Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são como sítios desviados
Do lugar

Daniel Faria

A concha. Vitorino Nemésio

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A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fachada de marés, a sonho e lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.

E telhados de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta ao vento, as salas frias.

A minha casa. . . Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.

Vitorino Nemésio

 

Encontro. Almada Negreiros

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Que vens contar-me

se não sei ouvir senão o silêncio?

Estou parado no mundo.

Só sei escutar de longe

antigamente ou lá para o futuro.

É bem certo que existo:

chegou-me a vez de escutar.

Que queres que te diga

se não sei nada e desaprendo?

A minha paz é ignorar.

Aprendo a não saber:

que a ciência aprenda comigo

já que não soube ensinar.

O meu alimento é o silêncio do mundo

que fica no alto das montanhas

e não desce à cidade

e sobe às nuvens que andam à procura de forma

antes de desaparecer.

Para que queres que te apareça

se me agrada não ter horas a toda a hora?

A preguiça do céu entrou comigo

e prescindo da realidade como ela prescinde de mim.

Para que me lastimas

se este é o meu auge?!

Eu tive a dita de me terem roubado tudo

menos a minha torre de marfim.

Jamais os invasores levaram consigo as nossas

torres de marfim.

Levaram-me o orgulho todo

deixaram-me a memória envenenada

e intacta a torre de marfim.

Só não sei que faça da porta da torre

que dá para donde vim.

 

Almada Negreiros