Mês: Junho 2014

Pelo sonho é que vamos. Sebastião da Gama

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Pelo sonho é que vamos,
comovidos e mudos.

Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.

Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia a dia.

Chegamos? Não chegamos?
– Partimos. Vamos. Somos.

 

Sebastião da Gama

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O vaso. Luís Filipe Parrado

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Vi como retiraste do vaso a terra,
e da terra as raízes da planta desconhecida.
Depois, com a tesoura de ferro,
cortaste o caule no ponto
certo. Em seguida, renovaste
a terra no vaso.
enterraste nela de novo a planta
que ressurgiu, surdamente,
na manhã de primavera
que sempre finda.
Agora, desvia um pouco o olhar,
repara em mim agora: vês as raízes,
o caule dobrado, a flor, o nome?
Por que não me cortas os braços, as mãos,
os pés, o tronco, e espalhas tudo
aos bocados pela terra?
Só preciso de um pouco de água:
em todos os lugares crescerei para ti.

Luís Filipe Parrado

d’aqui

Um velho na margem do rio. Giórgios Seféris

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E, no entanto, há que pesar como avançamos,

Não basta que sintas, nem que penses, nem que te movas,

Nem que arrisques o corpo na antiga ameia,

Quando o azeite a ferver e o chumbo líquido riscam a muralha.

E, no entanto, há que pesar para onde avançamos,

Não como quer a nossa dor, e as nossas crianças famintas,

E o abismo do convite dos nossos companheiros na outra margem;

Nem o que murmura a luz obscura do hospital improvisado,

Mas de outro modo; talvez queira eu dizer como

O longo rio que vem dos grandes lagos fechados de uma profunda África

E já foi Deus e depois se fez estrada e dom e juiz e delta;

Que nunca é o mesmo, como ensinam os antigos letrados,

Mas é sempre o mesmo corpo, o mesmo curso, o mesmo sítio,

E o mesmo norte.

Mais não quero que falar de modo chão, que me seja dada tal graça,

Pois a canção, tanto a carregámos de músicas que se vai afundando

E a nossa arte, tanto a decorámos, que os ouros lhe devoram a face

E é tempo de dizermos as nossas palavras poucas, pois a alma

Amanhã vai soltar o pano.

Se é humana a dor, não somos homens apenas para sofrer

E, por isso, tanto tenho meditado no grande rio;

Este sentido que avança por entre plantas e ervas

E bichos que pastam e matam a sede e homens que semeiam e ceifam

E grandes túmulos e até pequenas habitações dos mortos,

Esta corrente que abre o seu caminho não é diferente do sangue dos homens

E do olhar dos homens quando olham em frente sem medo no coração,

Sem o quotidiano temor das pequenas coisas nem até das grandes;

Quando olham em frente como o caminheiro que se afeiçoou a medir o caminho

[pelas estrelas,

Não como nós no outro dia olhando o jardim fechado na casa árabe adormecida,

Por trás da cerca, o jardinzinho fresco, mudando de forma, crescendo e minguando;

Mudando enquanto olhávamos, também nós, a forma do nosso desejo e do nosso coração,

Ao orvalho do meio-dia, nós, a paciente massa de um mundo que nos expele e nos molda,

Presos na rendada renda de uma vida que estava certa e se fez pó e se afundou na areia,

Deixando atrás de si apenas o indistinto balançar de uma pequena palmeira que nos

[deixou tontos.

Giórgios Seféris

tradução de manuel resende

Poema 15. Pablo Neruda

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Me gustas cuando callas porque estás como ausente,
y me oyes desde lejos, y mi voz no te toca.
Parece que los ojos se te hubieran volado
y parece que un beso te cerrara la boca.

Como todas las cosas están llenas de mi alma
emerges de las cosas, llena del alma mía.
Mariposa de sueño, te pareces a mi alma,
y te pareces a la palabra melancolía;

Me gustas cuando callas y estás como distante.
Y estás como quejándote, mariposa en arrullo.
Y me oyes desde lejos, y mi voz no te alcanza:
déjame que me calle con el silencio tuyo.

Déjame que te hable también con tu silencio
claro como una lámpara, simple como un anillo.
Eres como la noche, callada y constelada.
Tu silencio es de estrella, tan lejano y sencillo.

Me gustas cuando callas porque estás como ausente.
Distante y dolorosa como si hubieras muerto.
Una palabra entonces, una sonrisa bastan.
Y estoy alegre, alegre de que no sea cierto.

Pablo Neruda

O teu sono anoiteceu mais que a noite. José Luís Peixoto.

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o teu sono anoiteceu mais que a noite
e hei-de escrever-te sempre sem que nunca
te escreva sei as palavras que fechaste
nos olhos mas não sei as letras de as dizer
ensina-me de novo se ensinares-me for
ir ter contigo ao teu sorriso ensina-me
a nascer para onde dormes que me perco
tantas vezes numa noite demasiado pequena
para o teu sono num silêncio demasiado fundo
dormes e tento levantar a pedra que te
cobre maior que a noite o peso da pedra que
te cobre e tento encontrar-te mais uma vez
nas palavras que te dizem só para mim
o teu sono anoiteceu mais que as mortes
que posso suportar e hei-de escrever-te
sempre e mais uma vez sozinho nesta noite

José Luís Peixoto. A Criança Em Ruínas (2007)

A casa onde às vezes regresso. José Tolentino Mendonça

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A casa onde às vezes regresso é tão distante
da que deixei pela manhã
no mundo
a água tomou o lugar de tudo
reúno baldes, estes vasos guardados
mas chove sem parar há muitos anos

Durmo no mar, durmo ao lado de meu pai
uma viagem que se deu
entre as mãos e o furor
uma viagem que se deu: a noite abate-se fechada
sobre o corpo

Tivesse ainda tempo e entregava-te
o coração

José Tolentino Mendonça. A noite abre meus olhos.

Noite. Toni Montesinos Gilbert

ourem-portico por sol

Encontro a frágil felicidade
alojado nas noites partilhadas,
quando a amizade se revela nua
e os bebedores querem viver
a vida mais certa: a companhia.

É em noites assim que eu amo
a vida numa dimensão surpreendente.

É a minha única trégua na tristeza,
é o único momento sem morte
deste instante feliz chamado noite.
A vida deveria ser essa noite
que reúne todas as solidões.

Toni Montesinos Gilbert
(tradução de Manuel de Freitas)