Mês: Março 2014

Desmaiar-se, atrever-se, estar furioso. Lope de Vega

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Desmaiar-se, atrever-se, estar furioso,
áspero, terno, liberal, esquivo,
altaneiro, mortal, defunto, vivo,
leal, traidor, covarde e criminoso;

não ter, fora do bem, centro ou repouso;
mostrar-se alegre, triste, humilde, altivo,
agastado, valente, fugitivo,
satisfeito, ofendido, receoso;

fechar o rosto ao claro desengano,
beber veneno por licor suave,
olvidar o proveito, amar o dano;

acreditar que o céu no inferno cabe,
doar a vida e a alma a um doce engano,
isto é amor, quem o provou bem sabe.

Lope de Vega
Tradução: David Mourão-Ferreira

Escrever. Irene Lisboa

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Se eu pudesse havia de transformar as palavras em clava.
Havia de escrever rijamente.
Cada palavra seca, irressonante, sem música.
Como um gesto, uma pancada brusca e sóbria.
Para quê todo este artifício da composição sintáctica e métrica?
Para quê o arredondado linguístico?
Gostava de atirar palavras.
Rápidas, secas e bárbaras, pedradas!
Sentidos próprios em tudo.
Amo? Amo ou não amo.
Vejo, admiro, desejo?
Ou sim ou não.
E como isto continuando.

E gostava para as infinitamente delicadas coisas do espírito…
Quais, mas quais?
Gostava, em oposição com a braveza do jogo da pedrada, do tal ataque às
coisas certas e negadas…
Gostava de escrever com um fio de água.
Um fio que nada traçasse.
Fino e sem cor, medroso.

Ó infinitamente delicadas coisas do espírito!
Amor que se não tem, se julga ter.
Desejo dispersivo.
Vagos sofrimentos.
Ideias sem contorno.
Apreços e gostos fugitivos.
Ai! o fio da água , o próprio fio da água sobre vós passaria,
transparentemente?
Ou vos seguiria humilde e tranquilo?

Irene Lisboa

O poema. Natália Correia

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O poema não é o canto
que do grilo para a rosa cresce.
O poema é o grilo
é a rosa
e é aquilo que cresce.

E o pensamento que exclui
uma determinação
na fonte donde ele flui
e naquilo que descreve.
O poema é o que no homem
para lá do homem se atreve.

Os acontecimentos são pedras
e a poesia transcendê-las
na já longínqua noção
de descrevê-las.

E essa própria noção é só
uma saudade que se desvanece
na poesia. Pura intenção
de cantar o que não conhece.

Natália Correia

A sombra sou eu. Almada Negreiros

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A minha sombra sou eu,
ela não me segue,
eu estou na minha sombra
e não vou em mim.
Sombra de mim que recebo a luz,
sombra atrelada ao que eu nasci,
distância imutável de minha sombra a mim,
toco-me e não me atinjo,
só sei do que seria
se de minha sombra chegasse a mim.
Passa-se tudo em seguir-me
e finjo que sou eu que sigo,
finjo que sou eu que vou
e não que me persigo.
Faço por confundir a minha sombra comigo:
estou sempre às portas da vida,
sempre lá, sempre às portas de mim!

Almada Negreiros

Uma coisa inocente. José Tolentino Mendonça

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Estendi a mão por qualquer coisa inocente
uma pedra, um fio de erva, um milagre
preciso que me digas agora
uma coisa inocente

Não uses palavras
qualquer palavra que me digas há-de doer
pelo menos mil anos
não te prepares, não desejes os detalhes
preciso que docemente o vento
o longínquo e o próximo
espalhe o amor que não teme

Não uses palavras
se me segredas
aquilo que no fundo das nossas mentiras
se tornou uma verdade sublime

José Tolentino Mendonça

Heróicas XXXVI. José Gomes Ferreira

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Cala-te, voz que duvida
e me adormece
a dizer-me que a vida
nunca vale o sonho que se esquece.

Cala-te, voz que assevera
e insinua
que a primavera,
a pintar-se de lua
nos telhados,
só é bela
quando se inventa
de olhos fechados
nas noites de chuva e de tormenta.

Cala-te, sedução
desta voz que me diz
que as flores são imaginação
sem raiz.

Cala-te, voz maldita
que me grita
que o sol, a luz e o vento
são apenas o meu pensamento
enlouquecido…

(E sem a minha sombra
o chão tem lá sentido!)

Mas canta tu, voz desesperada
que me excede.
E ilumina o Nada
com a minha sede.

José Gomes Ferreira

Na casa antiga, cada um de nós levava | Fiama Hasse Pais Brandão

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Na casa antiga, cada um de nós levava
consigo um candeeiro, com que arrastava
o seu duplo de penumbra e de sombra.
A chama do petróleo ardia junto à boca,
podíamos devorar a própria luz.
Chamas nos queimavam as entranhas
e em archotes vivos nos tornaram,
vagueando por corredores e por escadas
atrás do Outro, que nada nos dizia.

Fiama Hasse Pais Brandão

Foto d’aqui

Já nada o fazia esperar mas eis… Helder Moura Pereira

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Já nada o fazia esperar mas eis
senão quando se libertou do jugo
que o dominara durante tantos anos.
Esquecia-se de quantos, mas foram muitos.
Parecia um miúdo todo contente
a brincar com um brinquedo novo,
que no seu caso se chamava tempo.
Quis logo trocar tudo, se se deitava
tarde, começava a deitar-se cedo,
se tinha deixado livros para ler,
lia-os de enfiada e ficava mal disposto.
Também brincava com a morte,
assim como um miúdo pequeno, hás-de
ter um lindo enterro, e coisas assim.
Havia de dar uma volta pelo interior,
descobrir cidades neutras, ver
outras caras, Não é que estivesse
farto destas, mas pertenciam
ao jugo, quer quisessem quer não.
E corria a favor do vento, tal e qual
um miúdo, e quando o vento
era contra, desistia, fingia
que já chegava de exercício.
Romper com tudo, mas deixar
uns fios soltos, com esses fios fazer
uma teia, armar uma rede, pôr-se
aos saltos na rede, como um miúdo.

Helder Moura Pereira

Um poema é sempre escrito numa língua estrangeira. António Ramos Rosa

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Um poema é sempre escrito numa língua estrangeira
com os contornos duros das consoantes
com a clara música das vogais
Por isso devemos lê-lo ao nível dos seus sons
e apreendê-lo para além do seu sentido
como se ele fosse um fluente felino verde ou com a cor do fogo
O que de vislumbre em vislumbre iremos compreendendo
será a ágil indolência de sucessivas aberturas
em que veremos as labaredas de um outro sentido
tão selvagem e tão preciosamente puro que anulará o sentido das palavras
É assim que lemos não as palavras já formadas
mas o seu nascimento vibrante que nas sílabas circula
ao nível físico do seu fluir oceânico

António Ramos Rosa

Deambulações Oblíquas. Quetzal, 2001.

Vieste como um barco carregado de vento. Maria do Rosário Pedreira

Vieste como um barco carregado de vento, abrindo
feridas de espuma pelas ondas. Chegaste tão depressa
que nem pude aguardar-te ou prevenir-me; e só ficaste
o tempo de iludires a arquitectura fria do estaleiro

onde hoje me sentei a perguntar como foi que partiste,
se partiste,
que dentro de mim se acanham as certezas e
tu vais sempre ardendo, embora como um lume
de cera, lento e brando, que já não derrama calor.

Tenho os olhos azuis de tanto os ter lançado ao mar
o dia inteiro, como os pescadores fazem com as redes;
e não existe no mundo cegueira pior do que a minha:
o fio do horizonte começou ainda agora a oscilar,
exausto de me ver entre as mulheres que se passeiam
no cais como se transportassem no corpo o vaivém
dos barcos. Dizem-me os seus passos

que vale a pena esperar, porque as ondas acabam
sempre por quebrar-se junto das margens. Mas eu sei
que o meu mar está cercado de litorais, que é tarde
para quase tudo. Por isso, vou para casa

e aguardo os sonhos, pontuais como a noite.

Maria do Rosário Pedreira,  ‘O Canto do Vento nos Ciprestes’

O sorriso. Torquato da Luz

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Falta-me ainda construir o poema

que sem rodeios cantará

a festa de estar contigo.

Entretanto, exploro um tema,

sedento de palavras que não há

para dizer o que digo:

o infindável tema do sorriso

que te marca o olhar.

E de nada mais preciso

para continuar.

Torquato da Luz

Não me deixes morrer longe do mar. Margarida Vieira

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não me deixes morrer longe do mar
das vagas de palavras que me sussurras
quando fechas os olhos espraiando os lábios
e as tuas mãos são algas apetecidas

não me deixes morrer longe do mar
das asas aladas de pássaros vivos
que ecoam as noites em amor escritas
salgadas por temperos escondidos

não me deixes morrer longe do mar
das marés tão certas de incerteza
como a vida preceder o tempo
ou o horizonte ser infinito com rosto

não me deixes morrer longe… de ti

Margarida Vieira

Se eu escrevesse um poema sobre ti. António Barroso Cruz

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Se eu escrevesse um poema sobre ti…

…teria que convocar as madrugadas
em que acordámos abraçados,
de peles húmidas e orvalhadas,
em beijos (des)compassados
em que os silêncios eram palavras

Se eu escrevesse um poema sobre ti…

…agarraria nos sorrisos que me deste
e em tantos momentos apenas nossos,
nos abraços com que me preencheste,
e nos pensamentos mais devassos
que nos percorreram o norte, o sul, o leste

Se eu escrevesse um poema sobre ti…

…escreveria sobre o mar
e as nuvens que disputam o céu,
desse verbo que gostamos de conjugar,
dos nossos corpos nus, sem véu,
e que rima(m) com loucura, com paixão, com amar

Se eu escrevesse um poema sobre ti…

…desenharia um vulcão incandescente
um raio caído sem destino,
ou uma tarde calada e entorpecente,
um orgasmo inequívoco em puro desatino,
um amanhã sem letras, (in)consciente

Se eu escrevesse um poema sobre ti…

…invocaria os deuses desconhecidos
para cantarem em coro o nosso requiem
em celebração dos gestos decididos,
nas auroras, e nos ocasos também,
inscritos nos devaneios preteritamente iludidos

ai…se eu escrevesse um poema sobre ti…

António Barroso Cruz, Poemas à Flor da Pele, 2013

O amor é. José Jorge Letria

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O amor é
um nome de mulher
na boca de um homem.

O amor é
uma flor perfeita
na lapela de um homem só.

O amor é
um continente sem fronteiras
para que tudo aconteça.

O amor é
a alegria do corpo
sem vergonha de amar.

O amor é
dividir somente
o que se pode partilhar.

O amor é
uma cidade azul
no dorso de uma nuvem.

O amor é
um rapaz loucamente
apaixonado por uma rapariga.

O amor é
tão fácil e tão simples
que até se torna difícil.

O amor é
tudo aquilo que um dia
ganhamos coragem para ser.

O amor é
gostarmos de nós
e sabermos porquê.

José Jorge Letria

Deus escreve direito. Sophia de Mello Breyner

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Deus escreve direito por linhas tortas

E a vida não vive em linha recta
Em cada célula do homem estão inscritas
A cor dos olhos e a argúcia do olhar
O desenho dos ossos e o contorno da boca
Por isso te olhas ao espelho:
E no espelho te buscas para te reconhecer
Porém em cada célula desde o início
Foi inscrito o signo veemente da tua liberdade
Pois foste criado e tens de ser real
Por isso não percas nunca teu fervor mais austero
Tua exigência de ti e por entre
Espelhos deformantes e desastres e desvios
Nem um momento só podes perder
A linha musical do encantamento
Que é teu sol tua luz teu alimento
_

Sophia de Mello Breyner Andresen

Aos poetas. Miguel Torga

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Somos nós
As humanas cigarras!
Nós,
Desde os tempos de Esopo conhecidos.
Nós,
Preguiçosos insectos perseguidos.
Somos nós os ridículos comparsas
Da fábula burguesa da formiga.
Nós, a tribo faminta de ciganos
Que se abriga
Ao luar.
Nós, que nunca passamos
A passar!…

Somos nós, e só nós podemos ter
Asas sonoras,
Asas que em certas horas
Palpitam,
Asas que morrem, mas que ressuscitam
Da sepultura!
E que da planura
Da seara
Erguem a um campo de maior altura
A mão que só altura semeara.

Por isso a vós, Poetas, eu levanto
A taça fraternal deste meu canto,
E bebo em vossa honra o doce vinho
Da amizade e da paz!
Vinho que não é meu,
mas sim do mosto que a beleza traz!

E vos digo e conjuro que canteis!
Que sejais menestreis
De uma gesta de amor universal!
Duma epopeia que não tenha reis,
Mas homens de tamanho natural!
Homens de toda a terra sem fronteiras!
De todos os feitios e maneiras,
Da cor que o sol lhes deu à flor da pele!
Crias de Adão e Eva verdadeiras!
Homens da torre de Babel!

Homens do dia a dia
Que levantem paredes de ilusão!
Homens de pés no chão,
Que se calcem de sonho e de poesia
Pela graça infantil da vossa mão!

Miguel Torga

Ars Aurifera – III. Natália Correia

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Medita a rosa se queres ler no soneto
Sábia escritura de divina mão;
Não fátuo verso, luzir de esmaltes feito
Mas sons de imaculada concepção.

Primeiro andor do Verbo é o quarteto
Que leva a coroa para a final unção.
Quatro lumes dê mais o Paracleto
E de almo sol sai a coroação.

Alto segredo ultima esta verdade:
Acendidas as tochas da Trindade
Reincide o terceto até que vês

Por catorze degraus que ao plectro exigem
Desagravos do Verbo, ao cimo a origem
Do soneto. São contas que Deus fez.

Natália Correia

Aprendiz na oficina da poesia. Rui Knopfli

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Não rimes.
Ou rima, se quiseres,
mas não violentes
a palavra.
Não busques ansioso,
qual amante inexperiente,
a palavra.

Espera antes
a sua vinda.

Música e rima
são acessórios dispensáveis:
O poema é outra coisa.

Deixa, pois,
que as palavras acordem
na matriz
e caiam maduras.
Áridas ou frias,
secas e imperturbáveis,
orvalhadas, humildes,
estropiadas até,
que sejam precisas,
prenhes de significado.

Espera as palavras.
Elas viajam misteriosas,
desconhecidas ainda,
elas germinam
em ti.

Caem. Juntam-se.
Doloridas, feias
sob o visco placentário,
deselegantes por vezes,
elas procuram-se
e organizam-se.

Juntas transcendem-se,
há algo de íntimo,
coeso e secreto
nelas.

O poema está aí.

Rui Knopfli

Livre e vertical. Joaquim Pessoa.

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O pé fincado na espuma branca
na leve areia poalha destes astros
que respiram o dia pelos troncos, árvores.
Pelas pedras já voam devagar
os exactos pássaros devorando
outros grãos de sol e trigo, areia.

Já sabemos de cor estas manhãs
tão altas e apenas meio-dia
e já os passos ressoam cavos altos
pela sombra dos corpos e dos olhos.
Não há por entre as ruas outras ruas.

Escrevo os versos com sangue disponível
dos pássaros que arremesso contra o espelho.
Caminho livre e vertical dobrando
o finíssimo equilíbrio das manhãs.

Joaquim Pessoa

Contra os objectivos. Bertold Brecht

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1

Quando os que combateram a injustiça
Mostram as faces feridas
A impaciência dos que estiveram em segurança é
Grande.

2

Porque vos queixais? – perguntam eles
Combatestes a injustiça! Agora
Foi ela que vos venceu: calai-vos pois.

3

Quem combate, dizem eles, tem de saber perder
Quem busca a luta corre perigo
Quem age com violência
Não se deve queixar da violência.

4

Ai, amigos que estais em segurança,
Por quê tão inimigos? Somos nós
Vossos inimigos, nós que somos inimigos da injustiça?
Se os combatentes contra a injustiça estão vencidos
Nem por isso a injustiça se faz justa!!

5

Pois as nossas derrotas
Nada provam senão
Que somos poucos
Os que combatemos contra a vilania.
E dos espectadores nós esperamos
Que ao menos tenham vergonha!

Bertolt Brecht
Tradução Paulo Quintela

Manual de jardinagem. Rosa Alice Branco

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É preciso mudar a terra do poema,
talvez arranjar um vaso maior
e deitar estrume em cada vaso.
Ainda ontem removi a terra
e vi no peso das palavras como escondem
o segredo da leveza.
É melhor esperarmos pela primavera/
por todos os meses que faltam
para hoje. Até lá
regarei o vaso como de costume.
Tenho exactamente o tempo de uma pausa/
atravessa o poema com o teu passo ágil
e senta-te comigo.
Que palavras nos fizeram falar? O que buscamos
no silêncio? Qual a melhor hora
para regar a água?
Caminhemos um pouco. No fundo do vaso
a razão declina no corpo do poema.
Havemos de a retirar com a pá que floresce na primavera/
depois atravessamos verso a verso
à superfície
sem vaso que contenha a humildade da terra.

Rosa Alice Branco,”Soletrar o dia”

East Coker. T. S. Elliot

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I said to my soul, be still,
and wait without hope
For hope would be hope for the wrong thing;
wait without love
For love would be love of the wrong thing;
there is yet faith
But the faith and the love and the hope
are all in the waiting.
Wait without thought, for you are not ready for thought;
So the darkness shall be the light, and the stillness
the dancing.

                                             T.S. Elliot

Pequena elegia de setembro. Eugénio de Andrade

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Não sei como vieste,
mas deve haver um caminho
para regressar da morte.
Estás sentada no jardim,
as mãos no regaço cheias de doçura,
os olhos pousados nas últimas rosas
dos grandes e calmos dias de setembro.

Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?
Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.
Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?
Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.

Eugénio de Andrade

Sobre flancos e barcos. Eugénio de Andrade

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Havia ainda outro jardim o da minha vida
exíguo é certo mas o do meu olhar
são talvez dois pássaros que se amam
um sobre o outro ou dois cães de pé
é sempre a mesma inquietação

este delírio branco ou o rumor
da chuva sobre flancos e barcos
o inverno vai chegar
sobre a palha ainda quente a mão
uma doçura de abelha muito jovem

era o sopro distante das manhãs sobre o mar
e eu disse sentindo os seus passos nos pátios do coração
é o silêncio é por fim o silêncio
vai desabar

Eugénio de Andrade, Vésperade Água

Para fazer o retrato de um pássaro. Jacques Prévert

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Pinta primeiro uma gaiola
com a porta aberta
pinta a seguir
qualquer coisa bonita
qualquer coisa simples
qualquer coisa bela
qualquer coisa útil
para o pássaro.
agora encosta a tela a uma árvore
num jardim
num bosque
ou até numa floresta
esconde-te atrás da árvore
sem dizeres nada
sem te mexeres…
às vezes o pássaro não demora
mas pode também levar anos
antes que se decida.
Não deves desanimar
espera
espera anos se for preciso
a rapidez ou a lentidão da chegada
do pássaro não tem qualquer relação
com o acabamento do quadro.
Quando o pássaro chegar
se chegar
mergulha no mais fundo silêncio
espera que o pássaro entre na gaiola
e quando tiver entrado
fecha a porta devagarinho
com o pincel
depois
apaga uma a uma todas as grades
com cuidado não vás tocar nalguma das penas
Faz a seguir o retrato da árvore
escolhendo o mais belo dos ramos
para o pássaro
pinta também o verde da folhagem a frescura do vento
e agora espera que o pássaro se decida a cantar
se o pássaro não cantar
é mau sinal
é sinal que o quadro não presta
mas se cantar é bom sinal
sinal de que podes assinar
então arranca com muito cuidado
uma das penas do pássaro
e escreve o teu nome num canto do quadro

Jacques Prévert
(tradução de Eugénio de Andrade)

Um amigo. Eduardo Bettencourt Pinto

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Há uma casa no olhar
de um amigo.
Nela entramos sacudindo a chuva.
Deixamos no cabide o casaco
fumegando ainda dos incêndios do dia.
Nas fontes e nos jardins
das palavras que trazemos
o amigo ergue o cálice
e o verão
das sementes.
Então abre as janelas das mãos para que cantem
a claridade, a água
e as pontes da sua voz
onde dançam os mais árduos esplendores.

Um amigo somos nós, atravessando o olhar
e os véus de linho sobre o rosto da vida
nas tardes de relâmpago e nos exílios,

onde a ira nómada da cidade arde
como um cego em busca da luz.

Eduardo Bettencourt Pinto, da outra margem

Os amigos. Al Berto

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no regresso encontrei aqueles
que haviam estendido o sedento corpo
sobre infindáveis areias

tinham os gestos lentos das feras amansadas
e o mar iluminava-lhes as máscaras
esculpidas pelo dedo errante da noite

prendiam sóis nos cabelos entrançados
lentamente
moldavam o rosto lívido como um osso
mas estavam vivos quando lhes toquei
depois
a solidão transformou-os de novo em dor
e nenhum quis pernoitar na respiração
do lume

ofereci-lhes mel e ensinei-os a escutar
a flor que murcha no estremecer da luz
levei-os comigo
até onde o perfume insensato de um poema
os transmudou em remota e resignada ausência

Al Berto,

Sete Poemas do Regresso de Lázaro

Aos amigos. Herberto Helder

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Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
– Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.

Herberto Helder, Ofício Cantante