Mês: Fevereiro 2014

[Talvez a minha vocação não seja esta] António Ramos Rosa

Pimrose

Talvez a minha vocação não seja esta
ou seja esta por ter perdido o espaço que nunca tive
Era algo selvagem algo violentamente vivo
o espaço na sua integridade deslumbrante
o mar na sua plenitude de felina substância
as ilhas de ouro verde as ilhas solares
as grandes pradarias com os seus cavalos vagarosos e tranquilos
a liberdade de ser o fogo com as suas veias indolentes
Sim eu perdi todo esse espaço que nunca tive
e se escrevo é para inventar um espaço a partir desta perda
na ficção de respirar o que há de mais selvagem e mais nu
como se estivesse entre escarpas verdes inundado pela espuma
ou como se estivesse no esplendor do deserto à hora do meio-dia
Mas o que faço não é mais do que um trabalho de insecto
que perfura a cal e as páginas dos livros
para traçar a sua caligrafia insignificante
na nulidade de uma matéria árida e anónima

António Ramos Rosa

Deambulações Oblíquas, 2001

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Mas agora estou no intervalo em que. António Ramos Rosa

olivia megalis

Mas agora estou no intervalo em que
toda a sombra é fria e todo o sangue é pobre.
Escrevo para não viver sem espaço,
para que o corpo não morra na sombra fria.

Sou a pobreza ilimitada de uma página.
Sou um campo abandonado. A margem
sem respiração.

Mas o corpo jamais cessa, o corpo sabe
a ciência certa da navegação no espaço,
o corpo abre-se ao dia, circula no próprio dia,
o corpo pode vencer a fria sombra do dia.

Todas as palavras se iluminam
ao lume certo do corpo que se despe,
todas as palavras ficam nuas
na tua sombra ardente.

António Ramos Rosa

A Construção do Corpo, 1969

Notificação. Charles Bukowski

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cidadãos do mundo
eu renuncio a vocês.
eu renunciei
há muito tempo.
mas isto é uma notificação
formal
eu contra
vocês
uma ordem de
restrição.
fodam-se
ressequem
desapareçam.
não venham até
minha porta
com pizza
bucetas
ou ofertas de
paz.
é tarde demais.
a música
congelou no
ar
castrada pela
ausência de sua

presença.

Charles Bukowski

poema para… Valter Hugo Mãe

Ivo Vaessen_Ghiannis Shipwreck 2007

poema para um corpo
deitado em cama larga
a chamar por mim

1
persegue-me à toa. nunca
pares para pensar.

2
esquece as ruas. os teus
caminhos estão em
mim.

3
abre os olhos como o postigo
de um pequeno e delicado esconderijo, e
deixa o vento entrar.

4
recolhe o riso e fragrância terna
das flores na primavera. afasta
os lábios em pétalas vermelhas de
paixão. deixa-me roubar-te esse húmido pólen.

5
deixa que a sede se
sacie à tona dos teus olhos, onde
pretendo cegar.

6
desenlaço o corpo do teu e
demoro longo tempo a
perceber os meus contornos, assim
como a estátua demora a
esquecer a forma desfigurada
da pedra que lhe deu origem.

7
se te alheares, visito-te por
dentro de mim e juro
não acordar enquanto
não vieres pedir desculpa.

8
fico só, sabendo
que todos os objectos têm a
forma do teu corpo, e
todos os sons se reconduzem
à tua voz. não deambulo
pela casa – excessiva de ti – fujo-lhe
na ausência de movimento e
no desejo de ficar absolutamente
só. lembro-me de como não gostas
de me ver chorar.

valter hugo mãe

 

Wild geese. Mary Oliver

You do not have to be good.
You do not have to walk on your knees
for a hundred miles through the desert, repenting.
You only have to let the soft animal of your body
love what it loves.
Tell me about despair, yours, and I will tell you mine.
Meanwhile the world goes on.
Meanwhile the sun and the clear pebbles of the rain
are moving across the landscapes,
over the prairies and the deep trees,
the mountains and the rivers.
Meanwhile the wild geese, high in the clean blue air,
are heading home again.
Whoever you are, no matter how lonely,
the world offers itself to your imagination,
calls to you like the wild geese, harsh and exciting –
over and over announcing your place
in the family of things.

Mary Oliver

Dream Work, Grove Atlantic Inc., 1986

Do nada à minha margem. Conceição T. Sousa

Stephan Martiniere
É um negro voo…
Mistura de águas profanas
com esta morte que triunfa
de um sonho proibido…
É a magia de esquecer
as cintilações
de uma angústia erguida.
É o sono.
O sono eterno
que me cobre.
É o furor de amar
esta loucura inocente
que passeia o meu corpo.
É o regressar a casa
fiel ao desejo
de esquecer a ilusão
de quem escolhe
os desesperos de um só instante.
É o poeta que rebenta na tua voz.
É o poeta
ensanguentado pelos poemas
que bebi
com cuidado.
É o poeta
que traz a chuva
que apenas existe na lúcida memória
das coisas não existentes.
O poeta
que me resume
e não me lê…
que me teme
e não me vê…
É o poeta de mim…
O naufrágio
que reembarca
do nada à minha margem.
Conceição T. Sousa
poemas do tamanho de nós
cordão de leitura
2012