Do nada à minha margem. Conceição T. Sousa

Stephan Martiniere
É um negro voo…
Mistura de águas profanas
com esta morte que triunfa
de um sonho proibido…
É a magia de esquecer
as cintilações
de uma angústia erguida.
É o sono.
O sono eterno
que me cobre.
É o furor de amar
esta loucura inocente
que passeia o meu corpo.
É o regressar a casa
fiel ao desejo
de esquecer a ilusão
de quem escolhe
os desesperos de um só instante.
É o poeta que rebenta na tua voz.
É o poeta
ensanguentado pelos poemas
que bebi
com cuidado.
É o poeta
que traz a chuva
que apenas existe na lúcida memória
das coisas não existentes.
O poeta
que me resume
e não me lê…
que me teme
e não me vê…
É o poeta de mim…
O naufrágio
que reembarca
do nada à minha margem.
Conceição T. Sousa
poemas do tamanho de nós
cordão de leitura
2012

2 thoughts on “Do nada à minha margem. Conceição T. Sousa

  1. METADE

    Oswaldo Montenegro

    Que a força do medo que tenho
    Não me impeça de ver o que anseio
    Que a morte de tudo em que acredito
    Não me tape os ouvidos e a boca
    Porque metade de mim é o que eu grito
    A outra metade é silêncio

    Que a música que ouço ao longe
    Seja linda ainda que tristeza
    Que a mulher que amo seja pra sempre amada
    Mesmo que distante
    Pois metade de mim é partida
    A outra metade é saudade

    Que as palavras que falo
    Não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor
    Apenas respeitadas como a única coisa
    Que resta a um homem inundado de sentimentos
    Pois metade de mim é o que ouço
    A outra metade é o que calo

    Que a minha vontade de ir embora
    Se transforme na calma e na paz que mereço
    Que a tensão que me corrói por dentro
    Seja um dia recompensada
    Porque metade de mim é o que penso
    A outra metade um vulcão

    Que o medo da solidão se afaste
    E o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
    Que o espelho reflita meu rosto num doce sorriso
    Que me lembro ter dado na infância
    Pois metade de mim é a lembrança do que fui
    A outra metade não sei

    Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
    Pra me fazer aquietar o espírito
    E que o seu silêncio me fale cada vez mais
    Pois metade de mim é abrigo
    A outra metade é cansaço

    Que a arte me aponte uma resposta
    Mesmo que ela mesma não saiba
    E que ninguém a tente complicar
    Pois é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
    Pois metade de mim é plateia
    A outra metade é canção
    Que a minha loucura seja perdoada
    Pois metade de mim é amor
    E a outra metade também

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