A sofreguidão de um instante. José Jorge Letria

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Tudo renegarei menos o afecto,

e trago um ceptro e uma coroa,

o primeiro de ferro, a segunda de urze,

para ser o rei efémero

desse amor único e breve

que se dilui em partidas

e se fragmenta em perguntas

iguais às das amantes

que a claridade atordoa e converte.

Deixa-me reinar em ti

o tempo apenas de um relâmpago

a incendiar a erva seca dos cumes.

E se tiver que montar guarda,

que seja em redor do teu sono,

num êxtase de lábios sobre a relva,

num delírio de beijos sobre o ventre,

num assombro de dedos sob a roupa.

Eu estava morto e não sabia, sabes,

que há um tempo dentro deste tempo

para renascermos com os corais

e sermos eternos na sofreguidão de um instante.

José Jorge Letria

O meu amor não cabe num poema. Mª Rosário Pedreira

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O meu amor não cabe num poema – há coisas assim,

que não se rendem à geometria deste mundo;

são como corpos desencontrados da sua arquitectura

ou quartos que os gestos não preenchem.

O meu amor é maior que as palavras,e daí inútil

a agitação dos dedos na intimidade do texto

– a página não ilustra o zelo do farol que agasalha as baías

nem a candura da mão que protege a chama que estremece.

O meu amor não se deixa dizer – é um formigueiro

que acode aos lábios como a urgência de um beijo

ou a matéria efervesente dos segredos; a combustão

laboriosa que evoca, à flor da pele,vestígios

de uma explosão exemplar: a cratera que um corpo,

ao levantar-se, deixa para sempre na vizinhança de outro corpo.

O meu amor anda por dentro do silêncio a formular loucuras

com a nudez do teu nome – é um fantasma que estrebucha

no dédalo das veias e sangra quando o encerram em metáforas.

Um verso que o vestisse definharia sob a roupa

como o esqueleto de uma palavra morta. Nenhum poema

podia ser o chão da sua casa.

Maria do Rosário Pedreira

Se fosses. António Botto

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Se fosses luz serias a mais bela
De quantas há no mundo: – a luz do dia!
– Bendito seja o teu sorriso
Que desata a inspiração
Da minha fantasia!
Se fosses flor serias o perfume
Concentrado e divino que perturba
O sentir de quem nasce para amar!
– Se desejo o teu corpo é porque tenho
Dentro de mim
A sede e a vibração de te beijar!
Se fosses água – música da terra,
Serias água pura e sempre calma!
– Mas de tudo que possas ser na vida,
Só quero, meu amor, que sejas alma.

António Botto

E por vezes. David Mourão-Ferreira

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E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos
E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se envolam tantos anos.

David Mourão-Ferreira

Labirinto ou não foi nada. David Mourão-Ferreira

via wood is good

Talvez houvesse uma flor
aberta na tua mão.
Podia ter sido amor,
e foi apenas traição.

É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua…
Ai de mim, que nem pressinto
a cor dos ombros da Lua!

Talvez houvesse a passagem
de uma estrela no teu rosto.
Era quase uma viagem:
foi apenas um desgosto.

É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua…
Só o fantasma do instinto
na cinza do céu flutua.

Tens agora a mão fechada;
no rosto, nenhum fulgor.
Não foi nada, não foi nada:
podia ter sido amor.

David Mourão-Ferreira

Burocracia do fim de uma longa amizade. Valter Hugo Mãe

wave of refreshment by ja5on

serve para lhe dizer, senhor
a. n., que depois do que
me fez, levei ao lixo cada objecto
que conservava a sua memória e que
eduquei a cabeça a pensar só em
excrementos sempre que por inércia
me quiser aborrecer com lembranças
do que vivi perto de si. que tolice, a
cabeça prega-nos truques, mas com o
presente estará sanado o vício e o
senhor, de vício, passará a ser um
cidadão livre da minha admiração e
cuidado. vai escrito aos dias vinte
de abril de dois mil e sete e vigora
em território nacional e comunitário
por aplicação directa e no resto do
mundo por força dos acordos tácitos
de quem tem vergonha na cara. no mais,
saiba que este poema o obriga a não
chegar à minha pessoa a menos de
vinte mil metros e a não me dirigir
palavra. com vocação para toda a
vida, este poema não é nada comparado
com a traição de que foi capaz. já penso
em excrementos quando escrevo
estes últimos versos e o meu coração
fecha-se naturalmente a toda e qualquer
ternura da sua amizade
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VALTER HUGO MÃE
Contabilidade
Poesia 1996-2010
Alfaguara (2010)