Mês: Outubro 2013

Redescobrias os objectos. Oscar Mourave

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Redescobrias os objectos
pelos traços da sua ausência
e então principiavas

a arqueologia do quotidiano
aonde tudo
―pelo seu discreto desenho

parecia indicar que ele estivera
por ali:
o barbeador sujo sobre o mármore

a t-shirt suada esquecida
no sofá

e um bilhete quase trivial
avisando-te que o gás tinha acabado
e e que te amava

agora já sabes como a memória
converte os dias de sol
numa canção triste.

Oscar Mourave.

Suburbia. Duas estações.

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enquanto falavas de um mar. Al Berto

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enquanto falavas de um mar
derramei sobre o peito os escombros da casa
reconheci-te
nos alicerces devorados pelas raízes das palmeiras
na sombra da ave deslizando junto à parede
no foco de luz rompendo o tijolo onde estivera a chaminé
vivemos aqui
com o ruído dum cano ressumando água
até que o frio nos fez abandonar o lugar e o amor

não sei para onde foste morrer
eu continuo aqui… escrevo
alheio ao ódio e às variações do gosto e da simpatia
continuo a construir o relâmpago das palavras
que te farão regressar… ao anoitecer
há uma sensação de aves do outro lado das portas
os corpos caídos
a vida toda destinada à demolição

tento perder a memória
única tarefa que tem a ver com a eternidade
de resto… creio que nunca ali estivemos
e nada disto provavelmente se passou aqui

Al Berto.
“O Esquecimento em Yucatán” (1982/83). O medo

O desgoverno dos sonhos. Valter Hugo Mãe

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ao luís miguel nava

já não te aguardo,
adio-me

sobre o veludo da tua
morte e o atrito do
corpo é a dolente barca onde
o dia não passa, pelo mar dentro
o céu a estalar

se à morte tudo sobeja,
sobejo de sentir o outono

o livro oblitera as
palavras e silencia-me.
deitar-me-ei, o sol a pesar o
meu corpo e tu, todo o
tamanho do mundo, calado, morto,
vasta extensão
que aprenderei a percorrer

existe uma arritmia ténue
no coração de quem perdeu
o amor de outrem, um coração
ténue que se sobrepõe ao que
já se tem

eu deixei a luz em
dias como este, conheço o
olhar sem imagens dentro,
sei do frio quando lento
se caminha a rua, quando nada
difere do que a alma
sente, esse fim do
amor na respiração que
recua

e sei o porquê desta ansiedade ao
virar a página
ainda que ninguém seja passível de se
esconder entre as
folhas de um livro

a morte não me
assusta, hei-de voar-lhe
no céu da boca
assim que se prepare para
me engolir

e resgato os pássaros
enquanto as árvores
chilreiam e defino o vento pela
sua mecánica

critico-os, de que adianta ser pássaro
quando não se tira os olhos do chão

por isso persigo o pôr do sol
janelas abertas e
vacilo

lágrima, pavio de
água que acabo de
acender, arde, onde
por fim parto

já tu me esperas,
abrevias-me

valter hugo mãe. folclore íntimo

Elegia. Nuno Júdice

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Ouvi dizer que não se dava com ninguém,
nos últimos tempos; subia sozinho a rua, até ao café,
e nada lhe desviava o olhar de uma atenção fixa
em algures, ou num pensamento que guardou para
si próprio. A vida é sempre uma realidade frágil
para quem se apercebe do outono e os primeiros ventos
do norte, que trazem consigo os céus limpos e as nuvens frias,
arrefecem a alma que não ganhou o hábito da solidão. “A poesia,
respondo-lhe, não dá resposta a esse último desconforto
do ser.” Ele não me ouve, agora que o seu próprio nome
se apaga na monotonia das tardes e das lentas estações. Só
uma ave antiga cruza, por vezes, o céu de esquecimento
em que a sua sombra dorme; deixando um sulco de asas,
como um verso, acordar por instantes a sua imagem.

Nuno Júdice. Um Canto na Espessura do Tempo (1992)

Navegámos para Oriente. Sophia de Mello Breyner Andresen

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Navegámos para Oriente ―
A longa costa
Era de um verde espesso e sonolento

Um verde imóvel sob o nenhum vento
Até à branca praia cor de rosas
Tocada pelas águas transparentes

Então surgiram as ilhas luminosas
De um azul tão puro e tão violento
Que excedia o fulgor do firmamento
Navegado por garças milagrosas

E extinguiram-se em nós memória e tempo

Sophia de Mello Breyner Andresen. As Ilhas (1977)

Estou vivo e escrevo o sol. António Ramos Rosa

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Eu escrevo versos ao meio-dia
e a morte ao sol é uma cabeleira
que passa em frios frescos sobre a minha cara de vivo
Estou vivo e escrevo sol

Se as minhas lágrimas e os meus dentes cantam
no vazio fresco
é porque aboli todas as mentiras
e não sou mais que este momento puro
a coincidência perfeita
no acto de escrever e sol

A vertigem única da verdade em riste
a nulidade de todas as próximas paragens
navego para o cimo
tombo na claridade simples
e os objectos atiram suas faces
e na minha língua o sol trepida

Melhor que beber vinho é mais claro
ser no olhar o próprio olhar
a maravilha é este espaço aberto
a rua
um grito
a grande toalha do silêncio verde

António Ramos Rosa. Estou Vivo e escrevo Sol (1966)

Talvez Deus se tenha enganado. Nuno Higino

Celastrina Argiolus_Filipe Caetano

Queria centrar-me todo em certas palavras, ocupar o espaço
sem necessidade de coordenadas, errar o tempo
tomando-o por tempos que nunca existiram. Desejaria a sorte
dos que morreram em naufrágios e foram poupados
à habitação dos cemitérios. Nunca tive jeito para ser feliz
[nem para gritar] e pior que isso: condenado à efémera
duração dos sonhos [bastava a poesia para condenar-me]
Talvez Deus se tenha enganado: sobre o barro soprou a vida
em vez do sonho.

 Nuno Higino. Talvez Deus se tenha enganado. Letras & Coisas (2004)