Mês: Agosto 2013

Poesia. António Gedeão

IMG_0156

Todo o tempo é de poesia

Desde a névoa da manhã
à névoa do outo dia.

Desde a quentura do ventre
à frigidez da agonia

Todo o tempo é de poesia

Entre bombas que deflagram.
Corolas que se desdobram.
Corpos que em sangue soçobram.
Vidas qua amar se consagram.

Sob a cúpula sombria
das mãos que pedem vingança.
Sob o arco da aliança
da celeste alegoria.

Todo o tempo é de poesia.

Desde a arrumação ao caos
à confusão da harmonia.

António Gedeão

Le déserteur. Boris Vian

be different_19

Monsieur le Président
Je vous fais une lettre
Que vous lirez peut-être
Si vous avez le temps
Je viens de recevoir
Mes papiers militaires
Pour partir à la guerre
Avant mercredi soir
Monsieur le Président
Je ne veux pas la faire
Je ne suis pas sur terre
Pour tuer des pauvres gens
C’est pas pour vous fâcher
Il faut que je vous dise
Ma décision est prise
Je m’en vais déserter

Depuis que je suis né
J’ai vu mourir mon père
J’ai vu partir mes frères
Et pleurer mes enfants
Ma mère a tant souffert
Elle est dedans sa tombe
Et se moque des bombes
Et se moque des vers
Quand j’étais prisonnier
On m’a volé ma femme
On m’a volé mon âme
Et tout mon cher passé
Demain de bon matin
Je fermerai ma porte
Au nez des années mortes
J’irai sur les chemins

Je mendierai ma vie
Sur les routes de France
De Bretagne en Provence
Et je dirai aux gens:
Refusez d’obéir
Refusez de la faire
N’allez pas à la guerre
Refusez de partir
S’il faut donner son sang
Allez donner le vôtre
Vous êtes bon apôtre
Monsieur le Président
Si vous me poursuivez
Prévenez vos gendarmes
Que je n’aurai pas d’armes
Et qu’ils pourront tirer.

Boris Vian

Motivo. Cecília Meireles

tumblr_mhm75iquC61qefrmxo1_500

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.


Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.


Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou se desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.


Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno e asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.


Cecília Meireles

Em todas as ruas te encontro. Mário Cesariny

IMG_0160

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

Mário Cesariny

As pedras. Maria Alberta Meneres

Pedras_equilibrio

As pedras falam? pois falam
mas não à nossa maneira,
que todas as coisas sabem
uma história que não calam.

Debaixo dos nossos pés
ou dentro da nossa mão
o que pensarão de nós?
O que de nós pensarão?

As pedras cantam nos lagos
choram no meio da rua
tremem de frio e de medo
quando a noite é fria e escura.

Riem nos muros ao sol,
no fundo do mar se esquecem.
Umas partem como aves
e nem mais tarde regressam.

Brilham quando a chuva cai.
Vestem-se de musgo verde
em casa velha ou em fonte
que saiba matar a sede.

Foi de duas pedras duras
que a faísca rebentou:
uma germinou em flor
e a outra nos céus voou.

As pedras falam? pois falam.
Só as entende quem quer,
que todas as coisas têm
um coisa para dizer.

Maria Alberta Menéres

A minha sombra sou eu. Almada Negreiros

IMGP0359

A minha sombra sou eu,
ela não me segue,
eu estou na minha sombra
e não vou em mim.

Sombra de mim que recebo a luz,
sombra atrelada ao que eu nasci,
distância imutável da minha sombra a mim,
toco-me e não me atinjo,
só sei do que seria
se de minha sombra chegasse a mim.

Passa-se tudo em seguir-me
e finjo que sou eu que sigo,
finjo que sou eu que vou
e não que me persigo.

Faço por confundir a minha sombra comigo:
estou sempre às portas da vida,
sempre lá, sempre às portas de mim!

Almada Negreiros

Dia del descobrimiento. Eduardo Galeano

IMGP9965
En 1492, los nativos descubrieron que eran indios,
descubrieron que vivían en América,
descubrieron que estaban desnudos,
descubrieron que existía el pecado,
descubrieron que debían obediencia a un rey
y a una reina de otro mundo
y a un dios de otro cielo,
y que ese dios había inventado la culpa y el vestido
y había mandado que fuera quemado vivo
quien adorara al sol y a la luna
y a la tierra y a la lluvia que la moja.

Eduardo Galeano
[Escomberoides]

O sapo pouco encantado. Valter Hugo Mãe

copo e landscape

nos armários da cozinha os
livros misturam-se com as facas, o
machado, as ratoeiras e os venenos, as
cartas, o óleo e o azeite, algumas velhas
latas de atum. nas gavetas da cozinha, à pressa,
passa a minha vida, como um tempo todo agora
urgente a terminar

costuro à noite quando o silêncio menos
se importa com os incautos. choro noite
inteira, cortando-me entre as pernas e
sangrando sobre os tecidos e estou sempre
na cozinha, ao pé dos objectos mais dentados, os
que conhecem a pele

capaz ainda de te amar,
vou ser um imbecil se publicar este poema
para te dizer que estou no filho da puta do mesmo
lugar de sempre à tua espera. passo nisto
os anos

emigra de si quem o coração perdeu. vivo longe

admito, sou um sapo pouco encantado, se
beijado torno-me um parvinho amoroso, mas
nunca um príncipe à antiga para uma
felicidade duradoura. garanto, quando muito,
competência, mas o romantismo tem de bastar-se
às platónicas formas da minha aflita alma, essa
coisa pequenina que me habita e que as
facas não cortam

Valter Hugo Mãe
contabilidade. primeiro livro. o inimigo cá dentro (2011)

Desenraizados. Cesare Pavese

DSC 002

Chega de mar. Já vimos mar que chegue.
Ao entardecer, quando deslavada a água se estende
e esfuma no nada, o meu amigo olha-a fixamente
e eu fixo o meu amigo e nenhum de nós fala.
Chegada a noite, acabamos por nos fechar nos fundos duma taberna,
perdidos no meio do fumo, e bebemos. O meu amigo tem sonhos
(o bramir do mar torna os sonhos um tanto monótonos)
em que a água é apenas o espelho, entre uma ilha e outra,
que reflecte colinas salpicadas de flores selvagens e cascatas.
Quando bebe, dá-lhe para isso. De olhos postos no copo,
vê-se a erguer colinas verdejantes sobre a planura do mar.
As colinas, a mim agradam-me; e deixo-o falar do mar
porque a água é tão clara que se vêem mesmo as pedras do fundo.

Eu, o que vejo é só colinas, e enchem-me o céu e a terra
com as linhas nítidas dos seus perfis, distantes ou próximas.
Mas as minhas são agrestes, estriadas de vinhedos
que crescem penosamente num solo calcinado. O meu amigo aceita-as
e quer vesti-las de flores e frutos selvagens
para nelas descobrir, entre risos, raparigas mais nuas que os frutos.
Não é preciso: aos meus sonhos mais agrestes não falta um sorriso.
Se amanhã, cedinho, nos metermos ao caminho,
poderemos encontrar nessas colinas, no meio das vinhas,
uma rapariga de pele morena, tisnada pelo sol,
e, talvez, metendo conversa, comer-lhe algumas uvas.

cesare pavese
trabalhar cansa
trad.carlos leite
cotovia
1997

Água morrente. Camilo Pessanha

gelo_3d_papel_papeis_de_parede
Meus olhos apagados,
Vede a água cair.
Das beiras dos telhados,
Cair, sempre cair.
Das beiras dos telhados,
Cair, quase morrer…
Meus olhos apagados,
E cansados de ver.
Meus olhos, afogai-vos
Na vã tristeza ambiente.
Caí e derramai-vos
Como a água morrente.
 Camilo Pessanha

clepsidra

Espaço preenchido. Ruy Belo

stones-76525_640
Somos todos de aqui. Basta-nos a pátria
que uma tarde de domingo nos consente
entre folhas de outono e frases de abandono
E abrem-se-nos ruas
para ir a sítios demasiado precisos
quando um só sítio se encontra
ao fim de todas as ruas e de todos os rios
Somos todos da raça dos mortos
ou vivos mais além
Mensagens de outra pátria não as traz
arauto algum que o nosso tempo vestisse
O que é preciso é dar lugar
aos pássaros nas ruas da cidade
ruy belo
relação
todos os poemas I
assírio & alvim
2004

Pastoral. António Gedeão

 

P1000925

Não há, não,
duas folhas iguais em toda a criação.
Ou nervura a menos, ou célula a mais,
não há, de certeza, duas folhas iguais.

Limbo todas têm,
que é próprio das folhas;
pecíolo algumas;
baínha nem todas.
Umas são fendidas,
crenadas, lobadas,
inteiras, partidas,
singelas, dobradas.

Outras acerosas,
redondas, agudas,
macias, viscosas,
fibrosas, carnudas.

Nas formas presentes,
nos actos distantes,
mesmo semelhantes
são sempre diferentes.

Umas vão e caem no charco cinzento,
e lançam apelos nas ondas que fazem;
outras vão e jazem
sem mais movimento.

Mas outras não jazem,
nem caem, nem gritam,
apenas volitam
nas dobras do vento.

É dessas que eu sou.

António Gedeão, Poesias Completas

Um amigo. Eduardo Bettencourt Pinto

teias e gotas de agua

Há uma casa no olhar
de um amigo.
Nela entramos sacudindo a chuva.
Deixamos no cabide o casaco
fumegando ainda dos incêndios do dia.
Nas fontes e nos jardins
das palavras que trazemos
o amigo ergue o cálice
e o verão
das sementes.
Então abre as janelas das mãos para que cantem
a claridade, a água
e as pontes da sua voz
onde dançam os mais árduos esplendores.

Um amigo somos nós, atravessando o olhar
e os véus de linho sobre o rosto da vida
nas tardes de relâmpagos e nos exílios,

onde a ira nómada da cidade arde
como um cego em busca de luz.

Eduardo Bettencourt Pinto

Rosa esquerda. Herberto Helder

 IMGP0990
rosa esquerda, plantei eu num antigo poema virgem,
e logo ma roubaram,
logo me perderam o pequeno achado,
mas ninguém me rouba a alma,
roubam-me um erro apenas que acertava só comigo,
um umbigo, um nó,
um nome que só em mim era floral e único
herberto helder
servidões,assírio & alvim,2013

Esplanadas. José Tolentino Mendonça

apanhador-de-sonhos
Um sofrimento parecia revelar
a vida ainda mais
a estranha dor de que se perca
o que facilmente se perde
o silêncio as esplanadas da tarde
a confidência dócil de certos arredores
os meses seguidos sem nenhum cálculo
por vezes é tão criminoso
não percebermos
uma palavra, uma jura, uma alegria
josé tolentino mendonça
a que distância deixaste o coração
assírio & alvim
1998

Eu nunca guardei rebanhos. Alberto Caeiro

IMGP1026
Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.
Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.
Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.
Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.
Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.
E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),
É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.
Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias,
Ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.
Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predilecta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer cousa natural –
Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.
 alberto caeiro
o guardador de rebanhos

Acaso de existir. José Gomes Ferreira

zen-stones-reflecting-white-flowers

Entrei no café com um rio na algibeira
e pu-lo no chão,
a vê-lo correr
da imaginação…

A seguir, tirei do bolso do colete
nuvens e estrelas
e estendi um tapete
de flores
a concebê-las.

Depois, encostado à mesa,
tirei da boca um pássaro a cantar
e enfeitei com ele a Natureza
das árvores em torno
a cheirarem ao luar
que eu imagino.

E agora aqui estou a ouvir
A melodia sem contorno
Deste acaso de existir
-onde só procuro a Beleza
para me iludir
dum destino.

José Gomes Ferreira

As coisas. Jorge Luís Borges

ruby_beach_stones_1_tylerwestcott.com

A bengala, as moedas, o chaveiro,
A dócil fechadura, as tardias
Notas que não lerão os poucos dias
Que me restam, os naipes e o tabuleiro,
Um livro e em suas páginas a ofendida
Violeta, monumento de uma tarde,
De certo inesquecível e já esquecida,
O rubro espelho ocidental em que arde
Uma ilusória aurora. Quantas coisas,
Limas, umbrais, atlas e taças, cravos,
Nos servem como tácitos escravos,
Cegas e estranhamente sigilosas!
Durarão muito além de nosso olvido:
E nunca saberão que havemos ido.

Jorge Luis Borges, trad. Ferreira Gullar

um defeito. Bertold Brecht

O vosso tanque, general, é um carro forte
Derruba uma floresta esmaga cem
Homens,
Mas tem um defeito
– Precisa de um motorista

O vosso bombardeiro, general
É poderoso:
Voa mais depressa que a tempestade
E transporta mais carga que um elefante
Mas tem um defeito
– Precisa de um piloto.

O homem, meu general, é muito útil:
Sabe voar, e sabe matar
Mas tem um defeito
– Sabe pensar

Bertold Brecht

Poema de domingo. António Gedeão

unknown foliage

Aos domingos as ruas estão desertas
e parecem mais largas.
Ausentaram-se os homens à procura
de outros novos cansaços que os descansem.
Seu livre arbítrio alegremente os força
a fazerem o mesmo que fizeram
os outros que foram fazer o que eles fazem.
E assim as ruas ficaram mais largas,
o ar mais limpo, o sol mais descoberto.
Ficaram os bêbados com mais espaço para trocarem as pernas
e espetarem o ventre e alargarem os braços
no amplexo de amor que só eles conhecem.

O olhar aberto às largas perspectivas
difunde-se e trespassa
os sucessivos, transparentes planos.

Um cão vadio sem pressas e sem medos
fareja o contentor tombado no passeio.

É domingo.
E aos domingos as árvores crescem na cidade,
e os pássaros, julgando-se no campo, desfazem-se
a cantar empoleirados neles.
Tudo volta ao princípio.

E ao princípio o lixo do contentor cheira ao estrume das vacas
e o asfalto da rua corre sem sobressaltos por entre as pedras
levando consigo a imagem das flores amarelas do tojo,
enquanto o transeunte,
no deslumbramento do encontro inesperado,
eleva a mão e acena
para o passeio fronteiro onde não vai ninguém.

António Gedeão, Novos Poemas Póstumos

Dia da Criação. Vinicius de Moraes

arameefolha
I

Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na Cruz para nos salvar.
Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.

Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.

II

Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado.
Há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado.
Há um homem rico que se mata
Porque hoje é sábado.
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado.
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado.
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado.
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado.
Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado.
Há um grande espírito de porco
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado.
Há criancinhas que não comem
Porque hoje é sábado.
Há um piquenique de políticos
Porque hoje é sábado.
Há um grande acréscimo de sífilis
Porque hoje é sábado.
Há um ariano e uma mulata
Porque hoje é sábado.
Há um tensão inusitada
Porque hoje é sábado.
Há adolescências seminuas
Porque hoje é sábado.
Há um vampiro pelas ruas
Porque hoje é sábado.
Há um grande aumento no consumo
Porque hoje é sábado.
Há um noivo louco de ciúmes
Porque hoje é sábado.
Há um garden-party na cadeia
Porque hoje é sábado.
Há uma impassível lua cheia
Porque hoje é sábado.
Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado.
Umas difíceis, outras fáceis
Porque hoje é sábado.
Há um beber e um dar sem conta
Porque hoje é sábado.
Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado.
Há um padre passeando à paisana
Porque hoje é sábado.
Há um frenesi de dar banana
Porque hoje é sábado.
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado.
De uma mulher dentro de um homem
Porque hoje é sábado.
Há a comemoração fantástica
Porque hoje é sábado.
Da primeira cirurgia plástica
Porque hoje é sábado.
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado.
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado.

III

Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens, ó Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário
Nem tu, mulher, ser vegetal dona do abismo, que queres como as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas em queda invisível na terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda e missa de sétimo dia,
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.

 

Vinicius de Moraes

Poema do homem-rã. António Gedeão

mergulhadora_silhueta2

Sou feliz por ter nascido

no tempo dos homens-rãs
que descem ao mar perdido
na doçura das manhãs.
Mergulham, imponderáveis,
por entre as águas tranquilas,
enquanto singram, em filas,
peixinhos de cores amáveis.
Vão e vêm, serpenteiam,
em compassos de ballet.
Seus lentos gestos penteiam
madeixas que ninguém vê.
Oh que insólita beleza!
Festivo arraial submerso.
Poema em líquido verso.
Biombo de arte chinesa.
No colóquio voluptuoso
dessa alegria pagã,
babam-se os olhos de gozo
na máscara do homem-rã.
Suspensas e sonolentas,
rendas de bilros voláteis,
esboçam-se as formas contrácteis
das medusas nevoentas.
Num breve torpor elástico,
como dobras de sanefas,
estremecem as acalefas
e as alforrecas de plástico.
Com barbatanas calçadas
e pulmões a tiracolo,
roçam-se os homens no solo
sob um céu de águas paradas.
Passam por entre as lisonjas
das anémonas purpúreas,
por entre corais e esponjas,
hipocampos e holotúrias.
Sob o luminoso feixe
correm de um lado para o outro,
montam no lombo de um peixe
como no dorso de um potro.
Onde as sereias de espuma?
Tritões escorrendo babugem?
E os monstros cor de ferrugem
rolando trovões na bruma?
Eu sou o homem. O Homem.
Desço ao mar e subo ao céu.
Não há temores que me domem.
É tudo meu, tudo meu.
António Gedeão, Poesias Completas

Relógio. João Pedro Mésseder

AstrologicalClock_Praga

 

Pronuncia a palavra como quem
lentamente
a desmontasse
– cada sílaba
um segundo

Ela nomeia
o pequeno maquinismo
do tempo divisível

onde um rosto invisível
te contempla
a cada sílaba

Até chegar a hora
em que te cansas
de ver
de ouvir
e de falar

João Pedro Mésseder

Ordem Alfabética, 2000

Reconheço as ruas… Joaquim Pessoa

salpicos_rua_noite

Reconheço as ruas e as paredes da infância
mesmo aquelas que já foram derrubadas.
Estava a comer só quando pensei nisto. E agora penso
nas coisas em que pensamos quando comemos sós.
Só posso falar por mim. Converso com o vento, vou com as aves
sobre os gumes aguçados das montanhas, por ali me demora planando
sentindo-me leve, leve, leve, tão leve como se não tivesse pecados ou acabasse de confessar-me.
Volto à cidade, volto a mim, é preciso escolher o vinho, sim, pode ser um Borba,
agora estou eu desencontrado com os meus projectos, as coisas não são feitas como eu penso,
deixo-as ficar assim, mas a minha estratégia era quase imbatível,
entretanto esta história da casa preocupa-me,
é muito dinheiro, o empréstimo compromete-me quase até à morte,
bom, se calhar tenho sorte e chego aos oitenta, até mais quem sabe?,
mas também posso apagar-me de um momento para o outro,
não seria nem o primeiro nem o último. Para sobremesa
quero fruta, um pêssego, não, talvez uma laranja, se for doce.
Ah!, tenho de falar ao editor, saber como vai a minha antologia,
talvez haja boas notícias, acho que está a ler-se mais outra vez,
já baixou a febre da informática e dos audiovisuais,
o que é que andará o Hugo a fazer, estou preocupado com ele,
a minha filha ficou de telefonar e o mais velho há dias que não diz nada,
não deve estar a precisar de mim, se não já tinha aparecido.
Os filhos são óptimos quando são pequenos, é bom vê-los crescer
mas o que eu não daria para tê-los de novo crianças,
aqueles olhos vivos, as palavras deformadas por excessos de ternura,
um café, se faz favor, não é preciso açúcar.
Os filhos, os filhos, que pensarão eles de mim daqui a trinta anos?,
possivelmente qualquer coisa semelhante ao que eu penso hoje do meu pai,
se fosse assim não era mau, melhor, era até justo, tenho sido um bom pai,
adoçante também não, muito obrigado. Não sei
por que é que esta gente faz tanto barulho, deviam estar todos mais magros,
conversam mais do dobro do que comem. Não, não,
fico-lhe muito agradecido mas não gosto de jogar na lotaria,
sorte é coisa com a qual nunca pude contar muito,
como diz o outro, tenho subido a corda a pulso.
A conta, por favor! Tenho tanta coisa para fazer esta tarde,
provavelmente guardarei para amanhã alguma coisa do que posso fazer hoje,
serei cliente de mim mesmo, tratar-me-ei com toda a deferência
e simpatia – uma factura, por favor! – isso, com muita simpatia,
arranjarei forma de ser simpático comigo mesmo,
ando cansado de gastar a minha simpatia com os outros.
Acho que mereço um bocadinho mais do que me têm dado,
ou talvez seja eu que dê demasiado por aquilo que me oferecem,
não sei, francamente não sei, não é o sítio nem tenho tempo para pensar nisso agora,
por que é que o tipo leva tanto tempo a trazer-me a factura?,
só faltava agora o telefone! ah, és tu!, não, quero dizer, sim,
não me demoro, já falamos nisso, não decidas nada sem eu chegar!,
é isto, também tenho que decidir com os outros e às vezes pelos outros,
estas coisas são mais difíceis do que parecem, a minha mulher
diz que passo o tempo em reuniões, que rico emprego,
não se faz mais nada a não ser umas reuniõezinhas, assim também eu, diz ela,
mas ela sabe lá o tamanho dos sapos que eu tenho de engolir,
agora por isso, olhe, por favor, falta a factura, já estou atrasado,
mas atrasado para quê, os meus grandes problemas não se resolvem hoje,
há coisas que esperam por nós uma vida inteira,
nós levamos uma vida inteira a esperar por certas coisas,
melhor seria eu hoje não ir a lugar nenhum – ah, a factura, obrigado! –
sinceramente não sei que faça, vou andando, já penso nisso,
preciso é de dar descanso à minha cabeça,
vim eu almoçar sozinho para não ouvir falar de problemas,
afinal aí estão os meus, gaita!, misturar problemas com filetes,
não há coração ou fígado que aguentem!, e mesmo sem interesse
não há nada como uma tagarelice à mesa
embora a minha mãe sempre me dissesse e insistisse,
Joaquim, eu já te disse que não se fala à refeição.

Joaquim Pessoa

Vou-me Embora de Mim,
Lisboa, Hugin, 2000

Pedra de Sisifo II. Daniel Faria

 

stefanoMagnani_VitaBrevis

Agora medirei o tempo
Pela vara erguida ao meio-dia
Pela areia a descer o coração
E o sono

Pela cinza no cabelo de Jacob
Pelas agulhas no colo de Penélope

Agora lavarei a minha face
Sem perturbar os círculos da água
Medirei o tempo pelo peso da pedra
De Sísifo, perto do cimo
E pelo musgo que dificulta
A firmeza dos seus pés

Partirei sozinho na viagem
Sem nenhuma pedra ou senda repetida
E no tempo repetido acharei uma saída
Uma manhã depois de uma manhã

Daniel Faria, Poesia

One Touch. Karen Thompson

takemyhand_LuisGomes_OlharesCom

If you were here,
I would take the measure of your skin
with my fingers –
just a little brush across your arm
to blend my self with you
in a small, unobtrusive way:
not to wake you,
not to demand your attention,
not to disturb your dreaming –
but simply to stake
my claim on your next breath
and the words you would speak to me:
Hush. Come closer.

If you were here,
I would wrap my thoughts around you
and take you with me
into a world that would allow
no apologies for need
or the wants that surface
when the dark presses too close
to leave any room for sleep
and imagination becomes more a torment
than a virtue:
this constant whirling
of words and images from a
past and future that engulfs now
and chokes the air
with disturbances that leach the tears
from my eyes and leave me trembling.

I hold the memory of you
in my blood,
in my bones,
in my skin,
in my eyes reflected in the mirror:
did you dream me into being
or did my reality separate into
the half that is alone
and the half that is missing
without you?

When we are lost in our days,
we can choose the means of touch –
but here, in the geography of alone,
all maps birth confusion
descending to blind corridors
narrow with a wanting
that accepts no solace
without the touch
that is denied.

Karen Thompson

Foi hoje um domingo bonito. Fernando Namora

tumblr_mlm29xCaw21s59yrco1_500

 

 

Foi hoje um domingo bonito, Cacilda!
A sanfona correu o lugar de lés a lés.
– Quem deu pelas histórias dos velhos?
Ninguém.
Quem ouviu a fome do gado, preso no curral?
Ninguém.
Quem espantou as galinhas, debicando nos cachos?
Ninguém.
Na venda, houve surra, abriram cabeças.
E farnéis na charneca e dança
no sobrado da tua avó.
O brasileiro trouxe aquela caixa que tem música
e modas di lá.
Tudo foi bonito, Cacilda!
Vem banhar-te na alegria
das penas adormecidas.
Deixa o amanhã.

Fernando Namora

A cavalo no vento. David Mourão-Ferreira

gaivota

 

A cavalo no vento sobrevoo
o destino sombrio deste porto,
aonde um rio vem morder o vulto
do mar confuso.
                           Ó mar despedaçado,
mordido em tanto flanco, o sobressalto
dos teus ombros nervosos já sacode
a terra toda!

E para quê mais portos
agressores, estaleiros rancorosos,
onde em surdina e sombra se conspira
contra a vida. . .?

. . . Contra a vida do mar e o seu poder
que só um corpo nu deve merecer!

David Mourão Ferreira

Às vezes as coisas dentro de nós. Fiama Hasse Pais Brandão

decksitters

O que nos chama para dentro de nós mesmos
é uma vaga de luz, um pavio, uma sombra incerta.
Qualquer coisa que nos muda a escala do olhar 
e nos torna piedosos, como quem já tem fé.
Nós que tivemos a vagarosa alegria repartida
pelo movimento, pela forma, pelo nome,
voltamos ao zero irradiante, ao ver
o que foi grande, o que foi pequeno, aliás
o que não tem tamanho, mas está agora 
engrandecido dentro do novo olhar.

Fiama Hasse Pais Brandão
As fábulas

Poetas. Miguel Torga

401837_375348619186903_398183274_n

 

Somos nós
… As humanas cigarras!
Nós,
Desde os tempos de Esopo conhecidos.
Nós,
Preguiçosos insectos perseguidos.
Somos nós os ridículos comparsas
Da fábula burguesa da formiga.
Nós, a tribo faminta de ciganos
Que se abriga
Ao luar.
Nós, que nunca passamos
A passar!…

Somos nós, e só nós podemos ter
Asas sonoras,
Asas que em certas horas
Palpitam,
Asas que morrem, mas que ressuscitam
Da sepultura!
E que da planura
Da seara
Erguem a um campo de maior altura
A mão que só altura semeara.

Por isso a vós, Poetas, eu levanto
A taça fraternal deste meu canto,
E bebo em vossa honra o doce vinho
Da amizade e da paz!
Vinho que não é meu,
mas sim do mosto que a beleza traz!

E vos digo e conjuro que canteis!
Que sejais menestreis
De uma gesta de amor universal!
Duma epopeia que não tenha reis,
Mas homens de tamanho natural!
Homens de toda a terra sem fronteiras!
De todos os feitios e maneiras,
Da cor que o sol lhes deu à flor da pele!
Crias de Adão e Eva verdadeiras!
Homens da torre de Babel!

Homens do dia a dia
Que levantem paredes de ilusão!
Homens de pés no chão,
Que se calcem de sonho e de poesia
Pela graça infantil da vossa mão!

Miguel Torga, Odes