O horizonte das palavras. António Ramos Rosa

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Sem direcção, sem caminho

escrevo esta página que não tem alma dentro.

Se conseguir chegar à substância de um muro

acenderei a lâmpada de pedra na montanha.

E sem apoio penetro nos interstícios fugidios

ou enuncio as simples reiterações da terra,

as palavras que se tornam calhaus na boca ou nos meus passos.

Tentarei construir a consistência num adágio

de sílabas silvestres, de ribeiros vibrantes.

E na substância entra a mão, o balbucio branco

de uma língua espessa, a madeira, as abelhas,

um organismo verde aberto sobre o mar,

as teclas do verão, as indústrias da água.

Eu sou agora o que a linguagem mostra

nas suas verdes estratégias, nas suas pontes

de música visual: o equilíbrio preenche os buracos

com arcos, colinas e com árvores.

Um alvor nasceu nas palavras e nos montes.

O impronunciável é o horizonte do que é dito.

 

António Ramos Rosa

Acordes, 1990

 

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2 thoughts on “O horizonte das palavras. António Ramos Rosa

  1. PARA AGRIPINA
    Para Agripina, mulher do poeta

    António Ramos Rosa

    Talvez o anel prenda ainda a substância
    que quer a liberdade, a
    argila ardente
    e aérea,
    talvez o círculo se cerre ainda sobre o corpo
    sobre o corpo.
    Mas a brisa de sombra
    imediata
    traz a leveza funda que
    inebria e liberta
    e um acorde branco de
    intemporal frescura.
    Tudo agora se diz com a
    língua do silêncio.

  2. Entardecer

    Vejo as vermelhas caudas do crepúsculo
    e o verde fulgor do mar.
    Lenta é a tarde
    e quero demorá-la em densas pálpebras,
    consagrando-a à companheira imóvel
    na melancólica quietude do casario
    em que as consoantes são de espessa pedra e surda plenitude.
    Neste murmúrio de sombra ainda tão solar
    quero envolver-me cúmplice dos muros
    e da côncava expansão do tempo,
    até às praias distantes de um sossegado azul.
    Assim me alongarei nas mãos da sombra imóvel
    com o fogo do silêncio e a melancolia das colinas,
    vivendo o instante de um dinamismo lento
    em que estar é ser seguro na igualdade.

    António Ramos Rosa
    in Facilidade do Ar

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