Pensar em ti. António Gedeão

dandelion

Pensar em ti é coisa delicada.
É um diluir de tinta espessa e farta
e o passá-la em finíssima aguada
com um pincel de marta.

Um pesar grãos de nada em mínima balança
um armar de arames cauteloso e atento,
um proteger a chama contra o vento,
pentear cabelinhos de criança.

Um desembaraçar de linhas de costura,
um correr sobre lã que ninguém saiba e oiça,
um planar de gaivota como um lábio a sorrir.

Penso em ti com tamanha ternura
como se fosses vidro ou película de loiça
que apenas com o pensar te pudesses partir.

A. Gedeão

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One thought on “Pensar em ti. António Gedeão

  1. ESTRELA DA TARDE
    Ary dos Santos

    Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
    Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
    Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
    Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia

    Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
    E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
    Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
    Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia

    Meu amor, meu amor
    Minha estrela da tarde
    Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
    Meu amor, meu amor
    Eu não tenho a certeza
    Se tu és a alegria ou se és a tristeza
    Meu amor, meu amor
    Eu não tenho a certeza

    Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
    Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
    Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
    E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram

    Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
    Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
    Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
    E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram

    Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
    É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
    Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
    Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto

    Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto.

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