Mês: Fevereiro 2013

Sete anos de pastor Jacob servia, Luís de Camões

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Sete anos de pastor Jacob servia

Labão, pai de Raquel, serrana bela;

mas não servia ao pai, servia a ela,

e a ela só por prémio pretendia.

 

Os dias, na esperança de um só dia,

passava, contentando-se com vê-la;

porém o pai, usando de cautela,

em lugar de Raquel lhe dava Lia.

 

Vendo o triste pastor que com enganos

lhe fora assim negada a sua pastora,

como se a não tivera merecida;

 

começa de servir outros sete anos,

dizendo: – Mais servira, se não fora

para tão longo amor tão curta a vida.

 

Luís de Camões

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O palácio da ventura. Antero de Quental

Sonho que sou um cavaleiro andante

Por desertos, por sóis, por noite escura,

Paladino do amor, busco anelante

O palácio encantado da Ventura

 

Mas já desmaio…exausto e vacilante

Quebrada a espada já, rota a armadura…

E eis que súbito o avisto, fulgurante,

Na sua pompa e aérea formosura

 

Com grandes golpes, bato à porta e brado:

Eu sou o Vagabundo, o Deserdado…

Abri-vos, portas de ouro, ante meus ais!

 

Abrem-se as portas de ouro, com fragor…

Mas dentro encontro só, cheio de dor,

Silêncio e escuridão – e nada mais!

 

Antero de Quental

 

Cântico Negro. José Régio

Equinácea Ginebra
"Vem por aqui" -  dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom se eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: "vem por aqui"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis machados, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
- Sei que não vou por aí.

José Régio, Poemas de Deus e do Diabo

Dormes. Mia Couto

Dormes.
Não há no mundo senão teu rosto.

O céu sob o tecto
espera comigo que despertes.

O meu único relógio
é a sombra imóvel no chão do quarto.

A curva da terra
em tua pálpebra desenhada:
no teu sono me embalas.

Dormes-me.

Mia Couto

Murmúrios do mar. José Tolentino Mendonça

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«Paga-me um café e conto-te

a minha vida»

o inverno avançava

nessa tarde em que te ouvi

assaltado por dores

o céu quebrava-se aos disparos

de uma criança muito assustada

que corria

o vento batia-lhe no rosto com violência

a infância inteira

disso me lembro

outra noite cortaste o sono da casa

com frio e medo

apagavas cigarros nas palmas das mãos

e os que te viam choravam

mas tu, não, nunca choraste

por amores que se perdem

os naufrágios são belos

sentimo-nos tão vivos entre as ilhas, acreditas?

E temos saudades desse mar

que derruba primeiro no nosso corpo

tudo o que seremos depois

«Pago-te um café se me contares

o teu amor»

 

José Tolentino Mendonça

Zoologia: o rouxinol. Nuno Júdice

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Um rouxinol ocupa o centro da tua cabeça,
como se estivesse numa gaiola. Podia sair
pelos teus olhos, e voar de roda dos teus
cabelos, num movimento de carrossel. Podias
apanhá-lo com as mãos, e tocar as suas
asas, como se fossem um teclado, fazendo
ouvir a música do céu. Mas o rouxinol
não sai. Prefere que eu espreite para o
fundo dos teus olhos e o descubra, no
centro da tua cabeça, onde o guardas,
para que só eu possa ouvir o seu canto,
e imaginar as voltas que ele daria pelos
teus cabelos, se saísse de dentro de ti, e
me fizesse ouvir a música do céu quando
o prendesses com as mãos, para me dares
esse pássaro que não te quer deixar.
Nuno Júdice

Acaso. Antoine de Saint-Exupéry

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Cada um que passa em nossa vida,
passa sozinho, pois cada pessoa é única
e nenhuma substitui outra.

Cada um que passa em nossa vida,
passa sozinho, mas não vai só
nem nos deixa sós.

Leva um pouco de nós mesmos,
deixa um pouco de si mesmo.

Há os que levam muito,
mas há os que não levam nada.

Essa é a maior responsabilidade de nossa vida,
e a prova de que duas almas
não se encontram ao acaso.

Antoine de Saint-Exupéry