A palavra impossível. Adolfo Casais Monteiro

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Deram-me o silêncio para eu guardar dentro de mim 
A vida que não se troca por palavras. 
Deram-mo para eu guardar dentro de mim 
As vozes que só em mim são verdadeiras. 
Deram-mo para eu guardar dentro de mim 
A impossível palavra da verdade. 

Deram-me o silêncio como uma palavra impossível, 
Nua e clara como o fulgor duma lâmina invencível, 
Para eu guardar dentro de mim, 
Para eu ignorar dentro de mim 
A única palavra sem disfarce - 
A Palavra que nunca se profere. 

Adolfo Casais Monteiro

2 thoughts on “A palavra impossível. Adolfo Casais Monteiro

  1. Do Fim dos Segredos

    Quando se conta a outrem um segredo este
    desmaia: a palavra
    torna-se pele
    sem leão lá dentro.

    Não é mais segredo e não o sendo
    finge ser lembrança
    de fabrico imperfeito:
    um cliqueti no silêncio escancara

    a dantes inamovível porta
    e virada a página acha-se apenas
    uma moeda
    que não corre já.

    Júlio Pomar, in “TRATAdoDITOeFEITO”

  2. (Derrida tem um livro fabuloso intitulado «o gosto do segredo».
    .. este também vai para o “hall de entrada”. )

    Um Segredo

    Meu pai tinha sandálias de vento
    só agora o sei.
    Tinha sandálias de vento
    e isto nem sequer é uma maneira de dizer
    andava por longe os olhos fugidos a expressão em
    [nenhures
    com as miraculosas instantaneidades que nos fazem
    [estar em todos os sítios.

    Andava por longe meu pai sonhando errando vadiando
    mas toda a sua ausência era
    o malogro de o ser
    só agora o sei.
    Andava por longe ou sentíamo-lo longe
    vem dar no mesmo
    e no entanto víamo-lo sempre
    ali plantado de imobilidade absorta
    no cepo de carvalho raiado de negro
    a que o caruncho comera o miolo
    como as lagartas esvaziam as maçãs
    estranhamente quieto murcho resignado
    no seu estranho vadiar
    os olhos aguados numa tristeza que hoje me dói
    como um apelo perdido uma coragem abortada.
    Ausência era tão de mágoa urdida tão de fracasso
    [tingida
    ausência era
    altiva e desolada altiva e triste sobretudo triste
    tristeza sim tristeza solene e irremediada
    só agora o sei.

    Às vezes parecia-me uma águia que atravessa os ares
    sulco azul
    que nada distingue do azul onde foi sulcado
    e por isso nem é águia nem ao menos
    o que do seu voo resta para que
    o sonho se faça real.
    Meu pai era um homem com as nostalgias
    do que nunca acontecera e isso minava-o víscera a
    [víscera
    como as tais lagartas esfarelam as maçãs
    e então sei-o agora calçava as ágeis sandálias
    miraculosamente leves soltas imaginosas
    indo de acaso em acaso de astro em astro
    eram de vento as suas sandálias fabulosas
    levando-o aonde mais ninguém poderia chegar.

    Os outros não o sabiam nem eu o sabia
    só o víamos sentado no cepo velho
    raiado de negro como uma estrela fossilizada
    por isso tudo era para ele mais irremediável e triste
    sei-o agora tarde de mais
    tarde de mais é uma dor de remorso
    que me consome víscera a víscera
    como as tais lagartas esfarelam as maçãs.
    Mas de qualquer maneira existe um segredo
    de que ambos partilhamos
    ciosamente avaramente indecifradamente
    como os astutos conspiradores
    que fazem do seu segredo
    um mágico tesouro inviolado.

    Um segredo simples:
    o que sentiste pai
    sinto-o eu agora por ambos
    sinto-o por ti
    sinto-o por mim.

    Ainda que por ele devorados.

    Fernando Namora, ‘Nome Para Uma Casa’

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