Mês: Janeiro 2013

Clandestino, Paul Aster

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Recordem hoje comigo – a palavra
e contra-palavra
da evidência: a táctil aurora, amanhecendo
da minha mão cerrada: o aperto
ciliário do sol: o trecho de escuridão
que escrevi
na mesa do sono.

Agora
é a hora.
Tudo aquilo de que
me vierem privar,
levem-no agora de mim. Não
se esqueçam
de esquecer. Encham
de terra os bolsos,
e selem a boca
da minha caverna.

Foi lá
que sonhei a minha vida
rumo a um sonho
de fogo.

Paul Auster

(«Poemas Escolhidos», tradução de Rui Lage, Quasi)

 

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O palácio da ventura, Antero de Quental

Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busco anelante
O palácio encantado da Ventura!

Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura…
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!

Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado…
Abri-vos, portas de ouro, ante meus ais!

Abrem-se as portas d’ouro, com fragor…
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão – e nada mais!

Antero de Quental

in Antologia, p.78

Was it just a kiss?, Fernando Pessoa

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Was it just a kiss?
Was it more than this?
Was he just too kind?
Were you just too blind?
Anyhow
I want to know.
I am not jealous;
No, I am just zealous
That you should not fall.
And I think I’ll forgive
If only you tell me all.

Was it just a touch
On your arm? Was it more?
Was it just a kiss
Or something more than this?
Tell me, tell me, although
It may pain me, oh pain me
To know.
Did you smile? Did you kiss? Did you fall?
I shall really forgive,
If only you tell me all.

I know nothing about
what happened, but say
What happened. You may.
Don’t leave me in doubt,
The worst may make smart
Or break my heart,
But I shall have the better part.
(Oh, it was not just a kiss:
It was more than this…
Oh, why did you fall?)
Yes, I shall have the better part,
For I’ll really forgive,
If only you tell me all.

Fernando Pessoa, Inéditos, 1935

Equinócio, David Mourão-Ferreira

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Chega-se a este ponto em que se fica à espera
Em que apetece um ombro o pano de um teatro
um passeio de noite a sós de bicicleta
o riso que ninguém reteve num retrato

Folheia-se num bar o horário da Morte
Encomenda-se um gin enquanto ela não chega
Loucura foi não ter incendiado o bosque
Já não sei em que mês se deu aquela cena

Chega-se a este ponto Arrepiar caminho
Soletrar no passado a imagem do futuro
Abrir uma janela Acender o cachimbo
para deixar no mundo uma herança de fumo

Rola mais um trovão Chega-se a este ponto
em que apetece um ombro e nos pedem um sabre
Em que a rota do Sol é a roda do sono
Chega-se a este ponto em que a gente não sabe

David Mourão-Ferreira
Do tempo ao coração

És a terra e a morte, Cesare Pavese

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És a terra e a morte.
A tua estação é a obscuridade
e o silêncio. Não existe
nada que, mais que tu,
esteja tão longe da luz.
Quando pareces acordar
és somente dor,
ela está nos teus olhos e no teu sangue
mas não a sentes. Vives
como vive uma pedra,
como a terra dura.
E cobrem-te sonhos,
movimentos, queixas,
que ignoras. A dor,
como a água de um lago,
treme e cerca-te.
Há círculos na água.
Tu deixas que eles desvaneçam.
És a terra e a morte.

Cesare Pavese

As minhas asas, Almeida Garret

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Eu tinha umas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Que, em me eu cansando da terra,
Batia-as, voava ao céu.

– Eram brancas, brancas, brancas,
Como as do anjo que mas deu:
Eu inocente como elas,
Por isso voava ao céu.
Veio a cobiça da terra,
Vinha para me tentar;
Por seus montes de tesouros
Minhas asas não quis dar.
– Veio a ambição, co’ as grandezas,
Vinham para mas cortar,
Davam-me poder e glória;
Por nenhum preço as quis dar.

Porque as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Em me eu cansando da terra,
Batia-as, voava ao céu.

Mas uma noite sem lua
Que eu contemplava as estrelas,
E já suspenso da terra,
Ia voar para elas,
– Deixei descair os olhos
Do céu alto e das estrelas…
Vi entre a névoa da terra,
Outra luz mais bela que elas.

E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Para a terra me pesavam,
Já não erguiam ao céu.
Cegou-me essa luz funesta
De enfeitiçados amores…
Fatal amor, negra hora
Foi aquela hora de dores!

– Tudo perdi nessa hora
Que provei nos seus amores
O doce fel do deleite,
O acre prazer das dores.

E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Pena a pena me caíram…
Nunca mais voei aos céus.

Almeida Garret

L’amour existe encore, Luc Plamodon

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Quand je m’endors contre ton corps
Alors je n’ai plus de doute
L’amour existe encore

Toutes mes années de déroute
Toutes, je les donnerais toutes
Pour m’ancrer à ton port
La solitude que je redoute
Qui me guette au bout de ma route
Je la mettrai dehors
Pour t’aimer une fois pour toutes
Pour t’aimer coûte que coûte
Malgré ce mal qui court
Et met l’amour à mort
Quand je m’endors contre ton corps
Alors je n’ai plus de doute
L’amour existe encore
L’amour existe encore…

On n’était pas du même bord
Mais au bout du compte on s’en fout
D’avoir raison ou d’avoir tort
Le monde est mené par des fous
Mon amour, il n’en tient qu’à nous
De nous aimer plus fort
Au-delà de la violence
Au-delà de la démence
Malgré les bombes qui tombent
Aux quatre coins du monde
Quand je m’endors contre ton corps
Alors je n’ai plus de doute
L’amour existe encore
L’amour existe encore
L’amour existe encore…

Pour t’aimer une fois pour toutes
Pour t’aimer coûte que coûte
Malgré ce mal qui court
Et met l’amour à mort
Quand je m’endors contre ton corps
Alors je n’ai plus de doute
L’amour existe encore

Luc Plamodon