Se partires, não me abraces. Mª do Rosário Pedreira

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Se partires, não me abraces – a falésia que se encosta

uma vez ao ombro do mar quer ser barco para sempre

e sonha com viagens na pele salgada das ondas.
Quando me abraças, pulsa nas minhas veias a convulsão

das marés e uma canção desprende-se da espiral dos búzios;

mas o meu sorriso tem o tamanho do medo de te perder,

porque o ar que respiras junto de mim é como um vento

a corrigir a rota do navio. Se partires, não me abraces –

o teu perfume preso à minha roupa é um lento veneno

nos dias sem ninguém –longe de ti, o corpo não faz

senão enumerar as próprias feridas (como a falésia conta

as embarcações perdidas nos gritos do mar); e o rosto

espia os espelhos à espera de que a dor desapareça.
Se me abraçares, não partas.

Mª Rosário Pedreira in O Canto do Vento nos Ciprestes

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One thought on “Se partires, não me abraces. Mª do Rosário Pedreira

  1. APENAS UM SONETO
    Luís Filipe Castro Mendes

    O delicado desejo que te doura
    e nos dura na pele quando anoitece
    é contra a nossa vida que se tece
    e é no verso que vive e se demora.

    Amor que não tivemos nem nos teve
    veio-nos chamar agora. De repente
    fez-se névoa a palavra do presente
    e luz teu corpo que toquei de leve.

    Mas se arde na memória da canção
    o corpo que me deste e me fugiste,
    o verso é outro modo de traição

    por que minto ao que nunca tu mentiste.
    E enganamos assim o coração,
    disfarçando de mitos o que existe.

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